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A viagem do escritor

Por um pedaço de Macau. Terra de encanto que despertou, desde o primeiro momento, a atenção de João Paulo Cuenca. Dos casinos até às Ruínas de São Paulo, o autor brasileiro descreve-nos aquilo que vê além do imediato.

Pedro Galinha

Em adolescente aventurou-se na poesia, mas a escrita não entusiasmou as meninas da sua idade. Mais tarde, João Paulo Cuenca virou-se para os contos, numa altura em que a Economia também fazia parte da sua vida. Foi assim durante oito anos, tempo que o curso demorou a ser completado.

“Era um péssimo estudante”, garante o carioca de 33 anos que vê Macau como “a cidade simulacro”. Porquê? Foi isso que tentámos perceber, durante mais de duas horas, numa viagem pelo território sem mapas nem rumo definido.

Primeira etapa: os inevitáveis casinos que foram a primeira imagem que Cuenca encontrou quando teclou M-A-C-A-U no seu computador.

14h50. O cheiro floral que dá as boas-vindas a quem entra num espaço de jogo é uma inevitável sensação. Mas não é a única: “Aqui, você enxerga nitidamente o dinheiro a subir. Estas catedrais de dinheiro, monumentos verticais excêntricos, juntam pessoas que vêm para cá perder dinheiro. Isto é um ralo. As pessoas não vêm para ganhar, vêm para perder.”

Para João Paulo Cuenca, os casinos mostram “o poder desta potência imperialista que está a desequilibrar e vai desequilibrar a política mundial nas próximas décadas que é a China”. Mas nem tudo é mau. Há uma “cidade secular” a descobrir.

15h20. Depois de deixar para trás “uma espécie de Carmen Miranda” que dançava no hall de entrada do casino, é tempo de cruzar a Avenida da Amizade. No caminho, o escritor natural do Rio de Janeiro observa: “Macau é uma cidade que imita outras cidades, outros lugares. Imita Las Vegas. Imita Veneza. Há também um anfiteatro romano”.

Na opinião do autor, esta face “mais efémera” do território contrasta com a ideia romântica dos portugueses que “gostam de pensar que criaram [em Macau] uma nova identidade de forma afectuosa, harmoniosa”. “Os portugueses fantasiam o seu imperialismo”, atira João Paulo Cuenca.

No momento de espera rente a uma passadeira, a relação Portugal-Brasil atropela a conversa. “O brasileiro em média é um ignorante não só sobre o resto do planeta, mas também sobre si mesmo. Podemos pensar isso quando falamos na relação que o Brasil tem com Portugal. É um ignorante desinteressado, como se este sangue tivesse brotado da terra, daquela terra”, confessa o escritor.

15h35. Nova paragem num casino, desta feita para João Paulo Cuenca mostrar o que o impressionou e o que alguns não querem ver: a prostituição. “Existe uma passarela muito famosa em que você vê 24 horas por dia, num movimento constante, peripatético, moças chinesas com pernas muito alvas, descobertas, andando de um lado para outro. Elas são todas prostitutas.”

Algumas são mulheres bonitas e prendem-lhe o olhar. Lugar a um discurso moralista? Só enquanto cidadão comum porque “o escritor não tem compromisso com a ética e com a moral, como os outros seres humanos”. “Na minha concepção, o escritor é um animal amoral”, atira.

15h40. Um riquexó foi o meio encontrado para chegar ao templo de A-Ma. Até lá, João Paulo Cuenca duvidou da segurança do transporte utilizado, contemplou edifícios com traça portuguesa, recordou a sua cidade natal onde a tradicional calçada foi substituída e ainda avistou a beleza de uma mulher que sorria para uma câmara. A dada altura, a conversa desembocou no amor. “Todos os meus romances, tudo o que escrevo, passa pelo amor e pela morte. Inventámos o amor numa tentativa de esquecer que vamos morrer, porque temos noção da finitude das coisas”, explica o autor que acredita que a vida é “uma constante busca pela compreensão, pela criação de sentido”.

16h. Destino atingido, 200 patacas depois. E já dentro do templo eis que surge a palavra espiritualidade: “Isto não é mais espiritual do que se apaixonar por alguém, fazer amor ou escrever um romance. Cada um encontra a sua espiritualidade e escrever é parte dessa espiritualidade. Só pode ser”.

Cada passo que João Paulo Cuenca dá corresponde a uma nova descoberta. Quer mais e, por isso, busca no templo de A-Ma o ponto mais elevado para contemplar a paisagem que tem a China no horizonte.

“O escritor também quer isso, subir ao topo da montanha. Para olhar de cima e ver pontos de vista diferentes. A tarefa do romancista é essa. Mas para subir a essa montanha ele deve construi-la com palavras.”

O início da carreira do cronista e autor de “Corpo Presente”, “O Dia Mastroianni” e “O Único Final Feliz Para Uma História de Amor é um Acidente” precipitou-se neste momento de pausa e reflexão. Diz Cuenca que “chegou uma hora que não fazia sentido não escrever”. “Tinha uns 21 anos”, assegura.

16h35. A caminho do Porto Interior, os becos e as ruas estreitas convidam o olhar. “O confronto entre o Oriente e o Ocidente tem coisas que são intraduzíveis”, explica o escritor que esteve no Japão, país que serviu de pano de fundo ao seu último romance publicado.

Os minutos passavam e o plano de chegar às Ruínas de São Paulo é abortado. Mesmo assim, o ícone turístico de Macau é desconstruído por João Paulo: “É a afirmação de um povo que não se conteve. Parece-me que que Portugal nunca se satisfez com Portugal. Nunca esteve confortável com si mesmo. E eu, enquanto escritor, identifico-me com isso”.

 

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