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Do profano e dos cravos

No alto o ar é sacro. Mais puro, mais rarefeito, mais perto do divino. Mas em todo o sagrado vive um profano, como em toda a regra resiste, orgulhosa, uma excepção.

Dali de cima vemos a torre moderninha da cidade – diminutivo carinhoso, atenção. Ficamos um pouco mais perto do sol, que bateu quente mesmo em Janeiro. Contemplamos rostos centenários, vindos do ano em que a cidade foi invadida por holandeses. Em 1622 nasceu ali, na colina, a Capela de Nossa Senhora da Penha, onde, no adro, se ergue, de mármore, a estátua da Nossa Senhora do Bom Parto. Branca, serena, de olhos no céu, oferecia protecção aos marinheiros e pescadores.

Foi local de peregrinação para aventureiros dos mares que ali lançavam preces antes de se lançarem às ondas. Mas isso já foi há muito tempo. Hoje, no século XXI, o local continua a ser destino de romarias, mas agora de discutível carácter espiritual. E pensando bem, quem sou eu para dispor sobre a espiritualidade alheia?

O casamento, ninguém duvida, é uma união abençoada. E assim sendo, porque não aproveitar o cenário para umas fotografias? Ali eterniza-se um momento que ainda não aconteceu. Ele, de fraque e sapato preto e branco, ela com brilhantes, tiara, rendas e tudo a que se tem direito, que a ocasião só se vive uma vez – neste caso duas. Aparato não falta. É dia mas há luzes, maquilhagem e poses. Há staff.

A agitação não importa porque o local ferve de gente. O cenário, concluímos, apela ao romantismo. Casalinhos abraçam-se perante fotógrafos. Mamãs beijam os seus rebentos de cabelos no ar, numa ternura só vista. Crianças sorriem, dedinhos espetados em V, com a fachada da capela em pano de fundo. Turistas, claro, não deixam de captar o Grand Lisboa visto lá de cima, como quem diz “estivemos aqui”.

Os séculos passam mas a Capela de Nossa Senhora da Penha continua a ser local de rituais. Um grupo de adolescentes veste capas negras e usa um uniforme reconhecível para os amantes da feitiçaria. Varinhas em punho, ensaiam bruxedos. Também estes Harry Potter impersonators fazem questão de aparecer perante a objectiva. Click. Risos, Click, click, click. Poses, caras, feitiços em línguas do Oriente.

Para rematar, um toque de revolução. Porque tanto o profano como o sagrado são amantes do sangue, da luta, da poesia. Descendo as escadinhas como quem foge do sol, encontra-se uma réplica da gruta da Nossa Senhora de Lourdes, onde descansam, purpúreos, brilhantes e simbólicos, cravos em molho. Daqueles que só se dão em ares puros, próprios de colinas elevadas e divinas.

Inês Santinhos Gonçalves

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