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No quarto de Nicolas

Num mundo só há uma certeza: a cada dia que passa envelhecemos. Teoria barata? Não. A biologia está do nosso lado.

No entanto, a velhice – seja ela física ou psicológica – parece chegar a ritmos diferentes e jamais poderá ser vista como algo linear. Se não, vejamos: se durante uma semana nada mudou, de repente, em pouco tempo, sentimo-nos ultrapassados e miseravelmente velhos. Isto acontece em vários momentos, até mesmo nos mais banais. Por exemplo, ligamos a televisão e vemos putos de 18 anos como profissionais da bola. Sai-nos da boca um “estou velho, porra!”. O mesmo se aplica quando escutamos pequenos génios da música que, já nascidos na década de 1990, se tornam presença assídua nos nossos leitores de mp3 e demais suportes áudio.

Neste momento, apetece mesmo dizer o tal “estou velho, porra!”. Culpado: Nicolas Jaar. Para quem não sabe, o moço completou recentemente 22 anos, e, no ano passado, assinou “Space is Only Noise”.

Para a crítica, o disco de estreia deste estudante de Literatura Comparada na Brown University (Rhode Island) foi um dos melhores do ano passado. Contudo, a história de Nicolas escreve-se a partir de outros tempos. Recuemos até 2009.

Naquele ano, o jovem americano – filho de chilenos radicados nos Estados Unidos – começa por dar nas vistas através de algumas remisturas e singles, alguns com uma vertente de electrónica dançável. No entanto, os restantes temas que foi apresentando já anteviam as sonoridades adoptadas no álbum de estreia que percorrem o dubstep e até, imaginem, o jazz.

A música de Ricardo Villalobos, DJ e produtor de música electrónica com ligações ao Chile – por lá nasceu, mas abandonou o país com os pais para a Alemanha, em 1973 –, pode ser considerada influência, mas em “Space is Only Noise” o que vemos é Nicolas Jaar como um ser único, capaz de criar espaços e ambientes de devaneio a partir das mais variadas influências.

Em “Balance Her In Between Your Eyes”, por exemplo, começamos por escutar cordas que nos remetem para paragens longínquas do Médio Oriente. Em “I Got a Woman”, Ray Charles e trechos de filmes franceses povoam um imaginário certamente engendrado no quarto. Aliás, Nicolas Jaar, a par de James Blake ou Jamie xx, faz parte da “geração sem estúdios e sem dinheiro” que, mesmo assim, consegue oferecer música de qualidade.

A enigmática “Colomb” é um belo pedaço e “Problems with the Sun”, com o seu baixo meio atabalhoado, torna-se viciante, assim como “Variations”, uma das grandes canções deste disco.

Se pensarmos o álbum como um edifício, percebemos que nas fundações infiltra-se a emoção. Quanto aos pilares que sustentam a obra, aí encontramos o ritmo que encaixa como uma luva em cada uma das vozes escolhidas para o disco. Ou seja, cada elemento da música de Nicolas Jaar só funciona porque foi alcançado um todo. E o mesmo princípio se aplica à audição de “Space is Only Noise” que, para ser bem absorvido, deve ser escutado da primeira faixa até à última. Vale o esforço.

Space is Only Noise, 2011

Nicolas Jaar

Pedro Galinha

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