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O que eles não dizem dos livros deles

– Pode falar-se de um novo romance português?

José Rodrigues dos Santos – Acho que isso é uma coisa que só se saberá daqui a uns anos.

Rui Cardoso Martins – Talvez tenhas razão. Aqui há uns anos andava-se sempre a tentar ver desta nova geração… Uma geração de realismo não sei quantos… Sou contra isto porque acho que as coisas são mais complexas.

– Essa ideia da nova geração é um produto da crítica?

R.C.M. – Quem trabalha nisso tenta encontrar maquetes. Mas, de facto, há tanta gente a escrever agora, em coisas diferentes – e tantas pessoas a escrever coisas interessantes e que nem sequer são publicadas –, que se calhar daqui a uns anos vai dizer-se que isto foi a geração de alguma coisa. Mas não acho que seja uma discussão que tenha interesse algum, sinceramente. Não quero entrar nisso. Quero que os meus livros façam parte, porque são os meus livros.

– Publica-se de mais em Portugal, hoje, para o universo de leitores que existe?

J.R.S. – Não. Isso faz lembrar aquela discussão de que a privatização da RTP é má para o mercado porque vai atacar os outros, dizem os outros. Mas esse argumento é falso, porque se eles estão no mercado, é porque acreditam no mercado. Se há mais, o mais fraco terá de ir à vida. Não deviam ter medo do mercado, supostamente. Eles querem é um oligopólio. Aqui é um bocado a mesma coisa. As pessoas publicam – não há mais, nem menos, há o que as pessoas produzem. E os autores nascem no país que é. As pessoas criam livros pelos mais variados motivos, mas essencialmente porque se sentem felizes a escrevê-los, a publicá-los, e correm riscos quando o fazem, como é evidente. Até podem publicar livros sem ter público – e depois vão criando público ou não conseguem criá-lo. Mas isso é ditado pelas regras e pela vontade da pessoa, de arranjar um editor que acredite nele ou não. Não há livros a mais ou a menos. Há os que as pessoas que vivem nesse país produzem. Às vezes faz-me confusão ver autores consagrados protestarem porque ‘agora toda a gente escreve’. Mas antigamente, há uns anos, protestavam porque não havia valores novos. Se ninguém escreve, ‘pois, não há valores novos, nós somos os arautos; se muita gente escreve, ‘pois, isto está a degradar-se, está toda a gente a escrever’. Isso não faz sentido. Ainda bem que há muita gente a escrever. Qual é o problema? Diria que mais vale haver a mais do que a menos. Depois, se for de má qualidade, o próprio mercado de alguma forma acabará por se encarregar disso, embora efectivamente muitas obras boas não tenham mercado. Os autores e as editoras têm de saber criá-lo.

R.C.M. – Sou um completo democrata nisto. Não faz sentido dizer se há autores a mais ou a menos. Mas, pelas últimas conversas que tenho tido, estou um bocado receoso que, com esta história da crise, apareçam pessoas novas com excelentes livros que não consigam publicá-los. Isto é um fenómeno recente, com a concentração das editoras e com tanta gente a ser despedida em tantos lados, incluindo nas casas editoras. Receio muito que algumas pessoas não tenham sequer possibilidade de se mostrar. Isso custa-me, porque é preciso haver de tudo. Nunca tive dificuldade em publicar, mas custa-me que haja pessoas que se percam. Acho que nos próximos anos vai acontecer.

J.R.S. – Há uma coisa importante a dizer. Também está relacionado com o trabalho das editoras e dos autores criarem público. Não gosto de falar dos outros autores, mas deste tenho de falar porque realmente teve um grande impacto. Até o “Equador” [de Miguel Sousa Tavares] ser publicado, havia várias teses dominantes, que eram verdades feitas no mundo editorial. Primeiro: autor português não vende. Segundo: livro grande não vende. Terceiro: livro caro não vende. E essas três teses foram todas destruídas com o “Equador”: um autor português, um livro grande, um livro caro – 27 euros já naquele tempo, em 2003. Esse foi um livro que criou público. Abriu um espaço que não existia – as pessoas em Portugal só liam livros de autores estrangeiros. Considerava-se o autor português um chatarrão. O exemplo do “Equador” é interessante porque mostra que é possível criar mercado. Se a obra tiver determinadas características e for trabalhada de determinada maneira pela editora e pelo autor, é possível criar mercado. E qualquer autor pode fazer isso – tem de trabalhar para isso, tem de ter a visão para criar –mas acho que em Portugal se criou um grande mercado para o autor português.

– Estão em viagem. Lêem quando viajam? O que estão a ler?

R.C.M. – Estou a ler uma biografia óptima do Keith Richards, dos Rolling Stones. É uma história de vida. Como ele dormiu – e dorme ainda, mas está mais calmo – um terço do que é costume nas pessoas, teve uma espécie de três vidas. Tem lá essa frase. É muito interessante. É daqueles trabalhos em que se percebe como é que uma pessoa que vem de um meio quase rural, dos subúrbios de Londres, com o seu talento e com a sua determinação, faz os Rolling Stones. Estou a ler isso com muito gosto.

J.R.S. – Estou a ler um livro de pesquisa para o meu novo romance, que não posso dizer qual é o título nem qual é o tema, se não as pessoas percebem (risos).

– E não se pode adiantar o tema do romance?

J.R.S. – Não.

– Faz parte do…

J.R.S. – Nunca falo dos meus romances antes de serem publicados.

– Rui Cardoso Martins, também não fala dos seus romances antes de serem publicados?

R.C.M. – Já disse uma vez o título. Não vou dizer a história, mas vai chamar-se “Se Fosse Fácil era para os Outros”. É um lema de uma pessoa muito querida e que me deu a ideia básica para aquilo que eu queria escrever. I.C.

 

 

 

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