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“Preciso de me sentir desconfortável”

Odeia o turismo mas adora viajar. Tatiana Salem Levy busca no estranho a inspiração. Não consegue escrever sobre cenários que lhe são familiares. Nem mesmo sobre o Rio de Janeiro, que tanta tinta faz correr.

Inês Santinhos Gonçalves

– De onde vem essa necessidade de sair da sua realidade para escrever?

Tatiana Salem Levy – Um lugar diferente e estranho desperta-me curiosidade para conhecer, e escrever é uma forma de tentar conhecer o mundo. Sinto-me muito confortável no Rio, então não tenho essa necessidade de escrever. Gosto de escrever sobre universos que não conheço, pessoas que não conheço. Cada escritor tem a sua motivação – para mim é a curiosidade. Preciso desse confronto com o outro, preciso desse estranhamento, de me sentir desconfortável. Isso para ter as ideias. Depois, para escrever mesmo, preciso da rotina. Não consigo escrever a viajar, só consigo tirar notas. Depois preciso de um tempo grande em que sei que vou dormir e acordar no mesmo lugar.

– Disse que detestava o turismo. Não considera que a obsessão em não ser turista acaba por ser tão artificial quanto seguir uma excursão?

T.S.L. – Depende de como se levar as coisas e o tempo que se tem. Um dos problemas do turismo, além de já se saber para onde se vai porque se viu no Google, ou de se ir com um grupo com um guia que fala a nossa língua, é a questão do tempo – [uma pessoa] tem 15 dias de férias e em 15 dias quer ver tudo. Não se conhece nada assim. Só se consegue entrar de facto num lugar se se tiver tempo para estar ali, para entrar em contacto com as pessoas. Também acho que tem que ver com dificuldade. Um dos problemas do turismo é que é tudo muito fácil, perde a graça. Quando há dificuldade para chegar a um lugar, quando é preciso fazer uma travessia, aquele lugar faz mais sentido. Viajo muito, então estou a ficar um pouco insensível a essa coisa de chegar a um lugar e pronto. A Ilha [dos Lençóis] é no Brasil mas tive a sensação de estar a ir para um lugar completamente diferente, muito mais do que quando cheguei aqui. Justamente porque houve essa coisa da travessia, da dificuldade.

– De que forma é que vê guias como Lonely Planet?

T.S.L. – Odeio guias. Claro que o Lonely Planet é um bom guia, o Routard é um bom guia e até é engraçado porque nessa viagem no Brasil fui com uma amiga espanhola que tinha um Routard e, de repente, fomos comer a sítios incríveis por causa do guia. Eu falei ‘nossa, isso é bom!’. Mas normalmente viajo sem guias, gosto de me perder, gosto de descobrir as coisas por acaso.

– Apesar das muitas coisas reconhecíveis que encontrou em Macau, também conseguiu sentir esse estranhamento de que tanto gosta?

T.S.L. – Claro. Por exemplo, quando estava a andar na rua e encontrei aquela carne prensada e doce. Há umas comidas muito diferentes, um cheiro diferente, pessoas diferentes. A língua também é fundamental – chegar a um lugar e não entender nada, isso é sempre uma experiência particular. E mesmo esses prédios mais antigos, com as grades, os becos, gosto desses lugares mais sujos – sujos no sentido de que parecem ter mais vida, mais história.

– É seguro dizer que tem uma certa atracção pelo desconforto?

T.S.L. – Sim, eu gosto de não entender, de me perder e de me sentir desconfortável.

 

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