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“Quanto mais tempo passo aqui, mais chinês me torno”

Tony Ayres é um dos convidados do I Festival Literário de Macau. Cineasta filho da terra, partiu para a Austrália em criança. Da infância e da mãe, em particular, guarda memórias duras, que serviram de inspiração a alguns dos seus filmes.

Inês Santinhos Gonçalves

– Qual é a sua relação com Macau?

Tony Ayres – Vivi cá até aos três anos. A minha mãe era uma cantora de bar em Hong Kong nos anos 1960 e costumava viver em Macau e trabalhar em Hong Kong. As minhas memórias mais recentes são do calor, da humidade e da chuva. Lembro-me das cores muito vivas. Regresso sempre que posso. Voltei em 2006 em busca de locais para filmar cenas do “The Home Song Stories” [filme ontem exibido no Cinema Alegria]. Sempre que vou a Hong Kong tento vir aqui. Há algo neste sítio que é tão invulgar e que expressa muito bem o que é a minha própria identidade, uma colisão entre a cultura europeia e a cultura asiática – de certa forma sinto que essa também é a minha colisão.

– O facto de ser um chinês na Austrália define o seu trabalho como cineasta?

T.A. – No passado fiz trabalhos sobre isso. A história da minha mãe é muito dramática, era uma mulher muito dramática. Já contei essa história algumas vezes. Também fiz um documentário [“Sadness”] que vai passar amanhã [hoje] sobre um fotógrafo sino-australiano que contou a história sobre um assassínio que se passou na família dele. Interesso-me muito por colisões culturais, pessoas que vêm de outros lugares, deslocações.

– Não fala cantonês nem mandarim. Nas suas viagens pela China acontece-lhe muito as pessoas tentarem falar consigo em chinês?

T.A. – Sim, sim. Estive a filmar uma mini-série no final dos anos 1990 e parte da história era sobre alguém que regressa à China e se sente muito em casa, encontra a sua identidade. [Nessa altura] toda a gente olhava para mim. Gostava de falar mandarim e cantonês, já tentei aprender, mas a minha vida é muito ocupada. Se pudesse tirar seis meses e ir aprender para a China, seria óptimo. Mas tenho dificuldade em tirar seis dias, quanto mais seis meses.

– Passa por essa sensação de reconhecimento identitário quando vem à China?

T.A. – É muito interessante para mim. Obviamente que sou chinês. Mas como vivo num mundo muito ocidental demoro algum tempo a conectar-me, a ver-me como parte da cultura. A nossa identidade é composta de muitas coisas diferentes. No meu caso, muitas vezes é o meu trabalho como cineasta. Acho que quanto mais tempo passo aqui, mais chinês me torno. Quando estou na Austrália torno-me muito australiano.

 

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