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Incontornável mãe

As figuras mais fascinantes são aquelas que causam os maiores estragos. Rose, deslumbrante e enigmática, é cantora num bar de Hong Kong. O ano é 1964 e em torno dela, da voz e dos vestidos chineses de cetim que sempre usa, há uma aura de estrela de cinema. Noite após noite, homens admiram-lhe a voz e muito mais. Um dia, Rose decide deixar a China e seguir um deles, Bill, para a Austrália.

Assim começa “The Home Song Stories”, um filme autobiográfico de Tony Ayres, onde só os nomes foram alterados. No filme, ele é um rapazinho que viaja com a irmã por arrasto de uma mãe desequilibrada mas nem por isso mesmo fascinante. As coisas com Bill não resultam e daí para a frente a família salta de ‘uncle’ em ‘uncle’ – nome que as crianças chamam aos diversos namorados da mãe, homens que, tudo indicava, tomarão conta daquelas três almas perdidas num país estranho. Os ‘uncles’, no entanto, ou não têm vocação para pais de família, ou não suportam a paranóia inebriante que é Rose, o ciúme, o desequilíbrio, a loucura.

E assim, o gigante baú metálico é mudado, de casa para casa, transportado por quatro bracinhos franzinos. A certa altura, Rose volta para Bill, bom homem mas com pouco carisma. Marinheiro de profissão, ausenta-se por longos períodos – erro crasso – deixando a nova família a partilhar casa com a sua mãe. Insatisfeita com o dinheiro que Bill lhe deixou, Rose logo faz amizade com donos e funcionários de um restaurante chinês nas redondezas. Consegue, assim, comida “como deve ser” e uma rede de amigos e protectores que interessam à inteligente cantora. Entre eles está um cozinheiro bem-parecido, Joe, que rapidamente se candidata ao lugar de próximo ‘uncle’.

Os miúdos vivem entre constantes e abruptas mudanças de casa e patriarca, discussões domésticas em plenos pulmões, e enfrentam regularmente a incerteza do que comer no dia seguinte. Rose, no entanto, sempre lhes garante “your mother will make everything good”.

O tempo vai passando e May, a filha, torna-se adolescente. Joe, que por esta altura é o homem da casa, começa a desenvolver por ela uma paixoneta que parece ser correspondida. Tudo não passa, no entanto, de inocentes tardes a tocar viola e risinhos no cinema. Numa das cenas mais dramáticas e violentas do filme, Rose, enlouquecida de ciúmes e vendo o seu papel de sedutora ameaçado pela própria filha – que não deverá ter mais de 15 anos – grita, amaldiçoa e bate na jovem, acusando-a de arruinar a vida dos três. A tudo isto, Tom, o rapazinho de oito anos, assiste, mais uma vez.

Apesar de tudo, não odiamos Rose. Apesar das múltiplas tentativas de suicídio que deixam os filhos à beira do desespero. Apesar da instabilidade financeira e emocional, da chantagem, da promiscuidade, do egoísmo. Temos pena dela, acreditamos que tenta fazer o melhor que pode – e que falha sempre e redondamente.

Tony Ayres, o realizador de “The Home Song Stories”, esteve recentemente em Macau para o I Festival Literário, onde o filme foi exibido. Agora com 50 anos, Ayres, nascido em Macau, nunca deixou de escrever sobre a mãe, uma mulher que, contou-nos, continua a tentar perceber e perdoar.

“The Home Song Stories” é um filme que a vale a pena ver, não apenas pelo singular e verdadeiro drama humano da história, pelas Macau e Hong Kong dos anos 1960 retratadas em imagens, mas também porque é uma visão genuinamente misturada do que é ser chinês, de um ponto de vista ocidental. Ayres abraçou a Austrália e por lá se estabeleceu. Desde então tem regressado à China com regularidade. Sente-se chinês, diz, mas não fala nem cantonês nem mandarim.

Desta colisão de culturas e identidades nasceu uma obra que comunica, certamente, com os dois mundos. Como se quer e como sempre deveria ser.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

 

“The Home Song Stories”

Tony Ayres, 2007

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