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Morrer graciosamente

Ele chama-se Enoch e isso basta. Infiltra-se em funerais alheios, veste-se de preto e tem aquele aspecto emo hollywoodesco bonitinho, o perfeito teenager sofredor.

Quanto a ela, custa mais fazer ironia. Annabel (Mia Wasikowska) tem um tumor no cérebro e uma fixação por Darwin, um estilo de roupa vintage e um sentido de humor peculiar.

Conhecem-se num funeral e apaixonam-se perdidamente. A jovem tem poucos meses para viver e dois nunca se esquecem disso. Para enfrentar a morte experimentam um sem fim de actividades, patinam, fazem esgrima, e namoram, namoram muito. No meio disto tudo há ainda Hiroshi, o fantasma de um piloto kamikaze japonês da Segunda Guerra Mundial.

Annabel sofre de uma doença terrível, aquilo a que o crítico de cinema britânico Peter Bradshaw chama de “o cancro de Hollywood”. É um cancro trágico mas belo, que obriga a um delicioso corte de cabelo à Audrey Hepburn – nada de mechas numa cabeça careca. O tempo passa e a palidez aumenta, e ela cada vez mais bonita, mais serena, mais doce. Um único ataque para nos lembrar que a coisa é séria. Já no hospital, Annabel sorri, sempre calma e fazendo uso daquela aura angelical quase infantil – que exaspera e enternece o espectador e as restantes personagens do filme. Na direcção oposta caminha Enoch, que revoltado não aceita que os dias junto da sua bela mártir cheguem ao fim.

A morte e o amor sempre foram uma dupla vencedora, mas em “Restless” abusa-se um pouco dos dois. Gus Van Sant consegue poesia e algum sentido de humor mas peca pelo excesso de glicodoce. “Restless” quer ser profundo mas vai pouco além de um romance adolescente de contornos mórbidos.

É bonito, sim. A música de Sufjan Stevens ajuda e os laranjas e castanhos também – afinal, haverá estação mais romântica que o Outono?

Poucos são os que desejam a morte, mas todos sabemos que ela chegará, um dia. Se for assim, sem vómitos, sem sangue, sem lágrimas, sem cheiro a hospital, então a inevitabilidade aceita-se melhor. E se a essa ausência de dor se juntarem passeios sobre folhas secas, beijos de Inverno e lengalengas sobre aves canoras, então a morte pode mesmo chegar a parecer uma coisa bonita.

Restless

Gus Van Sant, 2011

 

Inês Santinhos Gonçalves

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