Uncategorized

Cinco mil anos de história em quadradinhos

Vera Peneda, em Pequim

 

O livro de Jing Liu, “Entendendo a China em BD” (no título original em inglês “Understanding China Through Comics Vol. 1”), pretende provar que uma imagem pode valer mais que mil palavras. Graças ao desenhador, que nasceu e vive em Pequim, podemos folhear cinco mil anos de história chinesa condensada em 125 páginas de banda desenhada armazenada num iPad ou num Kindle. Liu desenhou uma viagem que começa com o nascimento da civilização chinesa no reinado do Imperador Amarelo. O livro destaca os antepassados míticos e as individualidades que, durante a dinastia Han, definiram cultura e políticas que moldaram e prevalecem na China dos nossos dias. Apelativo e de leitura fácil, as tiras de Liu pretendem responder a questões intemporais sobre a China, mas há quem critique o autor dizendo que cinco mil anos de história atribulada e complexa não se contam numa BD em inglês.

– O que é que inspirou o seu livro?

Jing Liu – O meu filho recém-nascido e um dito popular chinês. Pergunto-me com frequência em que tipo de país é que o meu filho vai crescer e qual será o futuro da China. Por outro lado, recordo as palavras do filósofo chinês Confúcio: “Aos 40 anos, um homem já não deve estar confuso”. Ora, à beira dos 40 percebi que ainda estava desorientado acerca da história do meu país. Iniciei a pesquisa e apercebi-me da quantidade imensa de informação e de factos contraditórios no percurso histórico chinês. O livro foi a forma de sintetizar tanta informação num apanhado geral que ajuda a entender como o passado determinou os dias de hoje.

– Porquê uma BD em Inglês?

J.L. – A BD é um dos meus passatempos e os quadradinhos são um formato divertido e emocional que simplifica um tópico complicado. Eventos complexos como os ciclos dinásticos e conceitos abstractos como o Mandado do Céu são mais fáceis de explicar em desenhos. O inglês é um idioma global e acessível a um maior número de pessoas.

– Como é que compilou a informação?

J.L. – A pesquisa de conteúdo e imagem levou cerca de três anos – tenho sorte, vivo perto da biblioteca nacional. Não sou um especialista, nem historiador, por isso seleccionei factos de acordo com a lógica e contei a história sob a perspectiva de alguém que vive no século XXI. Sou fã das tiras de BD do Calvin and Hobbes mas tentei ser o mais fiel possível ao desenho original chinês, como os cartoons da dinastia Han e da dinastia Qing, para retratar melhor a realidade dessas épocas.

– Qual é a sua passagem favorita?

J.L. – A primeira página e a introdução: “Depois de 17.434 desastres naturais, 3791 guerras massivas, 663 imperadores e 95 dinastias, a civilização de cinco mil anos persiste”. Levei três meses só para escrever esta frase porque estes números não existem compilados num só livro. Tive de ler manuais especializados em desastres naturais, guerras e dinastias para fazer as contas.

– Que tipo de percepções erradas o livro pode desmistificar?

J.L. – Os livros acerca da China são essencialmente categorizados em dois grupos: os que assumem que a China vai salvar o mundo conduzindo a economia global; e aqueles que defendem que a China vai dominar o mundo e que toda a gente vai viver sob a sua sombra. Enquanto chinês, que cresceu e vive rodeado de tradições e símbolos chineses, tenho impressão que esta dualidade é redutora. Uma das ideias que tentei passar é que a China tem andado sempre ocupada a solucionar problemas internos e, portanto, não lhe sobra muita energia nem para salvar nem para dominar o mundo.

– Como reage às críticas de simplificação da História Chinesa?

J.L. – Creio que a mais-valia do livro é precisamente essa: sintetizar uma história longa, pontuada por uma quantidade massiva de eventos e números, sem lhes retirar significado. Espero que os leitores entendam a estrutura básica da história chinesa aproximadamente em três dias, de forma profunda e rápida. Este livro é para quem não tem tempo de mergulhar nos manuais de história na biblioteca mas que realmente quer entender a China, a sua cultura e o seu povo.

– Porque é que o conceito de unidade nacional é tão importante para os chineses?

J.L. – Geograficamente, a China é um território vulnerável a invasões estrangeiras e desastres naturais. O país viveu ciclos de violência, morte e recuperação. Sempre que o governo central caiu, uma onda de violência tomou conta do território e registou-se um número colossal de mortes. Esta sequência de eventos está enraizada na memória colectiva do povo chinês, o que leva as pessoas a crer que a existência ou falta de um Governo Central forte é o factor que determina a paz ou a destruição. Actualmente, a China está a viver uma espécie de ‘época de ouro’ porque a estabilidade geral do país está salvaguardada por um Governo Central e uma economia em crescimento. Cabe aos leitores julgar o que vai acontecer no futuro.

– Quais são as vantagens de publicar um livro para plataformas como o iPad e o Kindle?

J.L. – Estas são as únicas grandes plataformas disponíveis para chegar a uma audiência global de forma imediata; permitem a distribuição global do livro sem problemas de logística ou armazenamento. O formato digital é mais barato, portátil e acessível.

– O que vai acontecer nos dois volumes que se seguem?

J.L. – Estou a trabalhar no segundo volume. “Volume Two: The Three Kingdoms through the Yuan Dynasty of Mongol Rule (220 – 1368)” é sobre a transição filosófica e política de cerca de 800 anos, desde a queda da dinastia Han até ao estabelecimento da dinastia Song. Este período foi a passagem dos tempos antigos para a pré-modernidade e pode ser comparado à transição da Idade Média para a época das luzes no Ocidente. O terceiro volume – “Volume Three: The Ming Dynasty through the Qing Dynasty (1368 – 1911)” – aborda a forma como o sistema central chinês se desenvolveu e começou a interagir com o Ocidente.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s