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“Estamos em decadência constante”

Carol Kwok constata a circulação da vida em fotografia. Mostra-nos veios luminosos em percurso sobre a natureza irremediavelmente morta, numa espécie de animação. “Jiang Mai” vê-se com alguma curiosidade mórbida.

Maria Caetano

“Se o inferno te quer às quatro, não podes adiar para as cinco”. Carol Kwok fotografa a caminho da morte, inevitavelmente, e o tema é incontornavelmente razão para falar da vida. Há quem se assuste – poucos compram as obras da artista. O ditado chinês é citado para explicar que, a haver curiosidade mórbida, esta é legitimada com a certeza permanente da decadência de tudo.

“Jiang Mai” são rios de veias, na acepção mais literal, e o aparelho circulatório que, para a medicina, nos liga integralmente enquanto seres dotados de vida. É este o nome da exposição que Kwok leva a partir de hoje ao Centro de Indústrias Criativas (Creative Macau) e que fica até ao próximo dia 27.

O núcleo da mostra é composto por aquilo que a artista designa como “pinturas de luz” – fotografias captadas numa sala escura, enquanto Kwok desenha com uma lanterna a luz sobre itens diversos – rãs, mexilhões, esqueletos de coelho, matéria vegetal, louva-a-deus. A impressão faz-se com tinta pigmentada sobre papel para aguarela.

O resultado são halos e fluxos de luz que percorrem e animam as criaturas mortas, como artérias do sistema vascular. Algumas das imagens foram já exibidas, outras vão a público pela primeira vez, tal como três instalações concebidas de propósito para esta mostra – um candeeiro suspenso feito de tubos de ensaio de fim clínico, um gigante néon com os caracteres “Jiang Mai” e um retrato floral de Dorian Gray, personagem da obra de Oscar Wilde que ambicionou ficar bela e jovem para sempre numa bela e jovem obra de pintura.

“Porque estive no mundo da moda e é a minha obra predilecta – nunca li qualquer outra que a ultrapassasse. É uma obra muito à frente do seu tempo, escrita no século XIX, mas que já nos pode falar de temas como a cirurgia plástica, o botox. Mostra-nos que estamos em decadência constante”, entende Kwok.

A artista de Macau, formada em Belas Artes – com especialização em fotografia nos Estados Unidos –, destaca que a perspectiva da morte é trabalhada na sua obra “de um ponto de vista mais positivo”. “Aquilo que tento dizer é: ‘então, vamos todos morrer e estamos em decadência’. Há quem me possa responder ‘não, não digas isso’. Mas entendo apenas que não há muito a recear”, defende.

A morte é simplesmente a inexorabilidade do caminho natural para a criadora, com algum carácter de acaso. “Nas notícias vemos histórias de um motorista cujo táxi de repente leva com um árvore em cima. Escapa por pouco. No acidente de Wenzhou, alguém fez uma viagem de comboio que não durava mais de uma hora e morreu”, descreve.

Jiang Mai reflecte a circulação entre a vida e a morte, com os custos da decadência e uma reflexão sobre o mito da preservação – ainda que com a convicção que a medicina faz algo pela vida.

“Já não tenho 30 anos, nem aquela invencibilidade. Costumava trabalhar muito, ganhava algum dinheiro e a certa altura, depois de fazer 33 anos, comecei a ter problemas de saúde. Do que ganhava, paguei pelo menos um terço ao meu médico”, exemplifica.

Além das imagens e das peças de instalação, há na galeria da Creative muito material médico, desde tubos de ensaio, bacias de esterilização, microscópios e um antigo aparelho de raio-X que funciona como caixa de luz e projecta a imagem de um esqueleto de coelho. Acompanham a mostra ainda outros instrumentos extemporâneos, como um aparelho eléctrico cuja pistola se destina produzir pequenas queimaduras nos pacientes.

“Cresci com estes objectos, estiveram perto de mim desde o momento em que nasci”, conta Kwok. “Toda a minha família, os meus dois avós, o meu bisavô e o meu pai foram médicos. A minha mãe é enfermeira”.

A família exerceu a prática da medicina ocidental, longe da tradição farmacológica chinesa. Já a artista manifesta interesse pela clínica tradicional, depois de ter adoecido com um problema de pele e de ter frequentado um semestre de ensino na área.

“Devido ao meu problema de pele, comecei a tomar produtos da medicina chinesa. Olho para aquilo que bebia e acho que é nojento – é castanho, é amargo. Mas curou-me. É estranho e curioso”, diz.

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