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“Ninguém deseja uma tragédia”

“Mas hoje estamos confrontados com situações estridentes”, avisa Toni Negri, filósofo italiano, ex-preso político, teórico estrela da democracia radical. Em entrevista, fala da China, da Europa, dos Estados Unidos. Do modo como o mundo está a mudar.

 

Carlos Picassinos, em Lisboa

 

Autor do novo manifesto comunista do século XXI – como é muitas vezes designado o livro “Império”, que escreveu com o norte-americano Michael Hardt –, o filósofo italiano Toni Negri, estrela intelectual do pensamento radical, esteve em Lisboa numa conferência de dois dias sobre manifestações e manifestos. Foi convidado na sequência dos movimentos dos Indignados e dos seus escritos sobre a potência da multidão, o “general intelect” e o comum. No intervalo das sessões, Negri manteve esta conversa com o PARÁGRAFO em que falou do fim da Europa como potência civil, da emergência da China, e de como hoje um espectro de tragédia percorre o mundo.

– Teorizou em “Império” [a obra que com Michael Hardt lhe deu parte da notoriedade que tem hoje], a emergência justamente de um império após o que identificava como a superação das soberanias nacionais. Vê na consolidação económica e geopolítica da China, e no declínio da Europa como potência civil, um fenómeno de substituição dos Estados Unidos como centro desse império de que fala? 

Toni Negri – Bem, as coisas não são exactamente assim. Vejo é, neste declínio, nos Estados Unidos, um certo ‘soft power’ que consegue impor alguns elementos de ‘governance’ muito fortes e, entre estes, vejo um ataque à Europa que, decididamente, tem sido muito eficaz. Esta crise veio acabar com as ambições do euro em afirmar-se enquanto moeda internacional de troca e depósito e, assim sendo, no grande mercado global resta-nos a China e os Estados Unidos. Mas agora quando é que a China se vai abrir e valorizar a sua moeda?! Por enquanto, permanece indexada ao dólar e apoia o dólar de um modo absolutamente rígido. A única alternativa, neste sentido, seria a aquisição de euros e assim mudar a moeda de referência mundial. Ora, a situação europeia é uma situação extremamente dramática e, deste ponto de vista, parece-me que se chegou a uma conclusão.

– Também ao nível político, que problemas coloca esta emergência da China?

T.N. – Bem, evidentemente, a China tem os problemas habituais de um país que apresenta estes níveis de crescimento. As contradições internas começam a colocar-se. Tenho um amigo que faz um diário em que actualiza todas as revoltas no mundo e diz-me que a situação chinesa é das mais afectadas por rebeliões, motins, revoltas, levantamentos, e sobretudo no campo, nas suas relações proprietárias. É uma situação de muita pressão. Por conseguinte, não sei. Nas poucas vezes que estive na China tentei perceber as contradições existentes, mas são de tal maneira complexas e de tal maneira profundas que é muito complicado formular um juízo preciso. Ainda recentemente participei em duas conferências em Itália com amigos que trabalham na China, em que estavam também responsáveis do Partido Comunista Chinês, mantenho contactos com editoras que publicam os nossos livros, mas é sempre muito complicado fazer juízos definitivos. Agora estou à espera que as coisas aqui na Europa se clarifiquem para depois se tentar entender qual é a possibilidade de a China se abrir ou se fechar aos Estados Unidos. Estamos, em suma, perante uma batalha hegemónica. Não se abriu ainda mas, a este propósito, parece-me que a China mantém uma prudência enorme.

– A Europa não está nessa batalha pela hegemonia.

T.N. – Não, a Europa vai estar afastada pelo menos nos próximos 20 anos e 20 anos em política é um tempo tremendamente longo.

– Fez nesta conferência uma declaração, talvez uma das mais pungentes, de que a democracia tinha acabado.

T.N. – Mas a democracia como todas as outras formas políticas não é um essente ideal, é uma prática, é uma coisa muito concreta. Na Europa, houve indiscutivelmente um tempo de democracia, depois da queda dos fascismos, um momento de democracia que, graças à resistência da União Soviética, é importante que isto se diga, permitiu aos pobres organizarem-se e obter um sistema de segurança social particularmente rico. O modelo europeu é um modelo que nasce de uma situação particular precisa. Nasce dos interesses do capitalismo mundial representado pelos Estados Unidos que, por seu lado, estavam a sair da crise de 1933, que tinham aplicado o New Deal, pressionados por esse enorme fenómeno que dominou o século XX que foi a Revolução de Outubro, e que foi uma coisa que verdadeiramente lançou o medo entre os capitalistas, uma vez que demonstrou que a relação do capital se poderia romper. Portanto, havia esta situação europeia em que um sistema de segurança social muito significativo se tinha conseguido cristalizar e em que as relações de classe, não digo que beneficiassem o proletariado, mas que, ainda assim, lhe garantiam um amplo bem-estar e tinham conseguido criar toda uma classe média a partir da velha força de trabalho do fordismo. Só que, a um certo ponto, o que se deu foi uma viragem, uma inflexão no caminho. E isso em virtude desta intensificação das lutas, de reivindicações por mais segurança social, de salários…

– E também uma inflexão da Europa como potência civil?

T.N. – Sim, também como potência civil. E agora o que temos? Temos uma destruição. Uma destruição das relações civis, se queremos falar assim, das relações do Estado de previdência, do bem-estar com uma vaga de privatização dos bens essenciais, de toda aquela riqueza que tinha sido comunalizada. E agora, em consequência, existe também esta crise da democracia formal. Hoje, já não assistes a relações dialécticas, entre forças sociais e políticas, assistes a um comando da banca sobre as forças políticas e sociais.

– E o indivíduo também desapareceu, outra das suas declarações.

T.N. – Mas o problema do indivíduo é um problema filosófico. Não creio que o indivíduo seja qualquer coisa que tenha uma alma e que vai para o paraíso ou para o inferno. O indivíduo é uma singularidade, muito precisa, materialmente determinada, pela sua educação e por todo o meio à sua volta, uma singularidade que cresce e se constrói no colectivo, na multidão, fora da solidão que o caracteriza, ou pelo menos na construção burguesa do indivíduo proprietário que cuida sempre do que lhe é próprio. Mesmo no trabalho… Hoje, fundamentalmente, o trabalho desenvolve-se de maneira imaterial através de mecanismos informativos, de acesso a redes. O passo para este tipo de trabalho tornou mais complexa a formação do indivíduo.

– Considera que estes movimentos dos Indignados, uma designação que tem sempre ressonância ética por detrás mais do que política, são produtores de novas subjectividades?

T.N. – Acho que sim, sem dúvida que sim, porque existe uma força política tremendíssima. Fiquei esmagado com o que vi em Espanha, e nos Estados Unidos, embora ali indirectamente. São fenómenos que deixam sinais de uma diferença fundamental. Acho que 2011 será lembrado como o início de uma época em que se começaram a reafirmar os princípios democráticos, e portanto as lutas, e portanto, muito provavelmente, também as tragédias. Historicamente, as tragédias na Europa são processos que acontecem sempre no quadro de uma crise em que se ataca a propriedade para benefício do comum. Ora, para quem possui é muito difícil ter de fazer uma escolha que envolva a sua propriedade. Hoje, encontramo-nos numa situação que é muito, muito, muito difícil, e deste ponto de vista, ninguém deseja que venha aí uma tragédia, mas hoje estamos confrontados com situações… (silêncio) que, diria, são particularmente, estridentes.

 

Negri, modo de usar

 

Antonio Negri é umas das estrelas intelectuais do pensamento radical dos nossos tempos e um dos teóricos da acção colectiva mais considerados entre os pós-comunistas (partidos e colectivos). Acusado, em 1979, por arrependidos das Brigadas Vermelhas de envolvimento do assassínio político do primeiro-ministro italiano, Aldo Moro, em 1978, foi condenado a uma pena de 30 anos de prisão, reduzida depois a 17, dos quais cumpriu cerca de dez, em que provou a sua inocência em quase todos os crimes de que estava acusado. Ainda na prisão, foi eleito, logo em 1983, deputado do Partido Radical, obteve imunidade, perdeu-a, fugiu para França onde conseguiu abrigo graças às leis Mitterrand de protecção aos refugiados políticos italianos.

No seu percurso académico, afirmou-se no final dos anos 1990 com os seus escritos sobre Espinosa e a democracia radical como um dos mais carismáticos renovadores do pensamento marxista. A sua intervenção em Lisboa na conferência de dois dias, em Janeiro passado, intitulada “Manifesto e Manifestações”, acolheu algumas das linhas do pensamento de Negri mas foi, sobretudo, pontuada pelo momento político presente de crise das instituições e do poder, e dos dispositivos de representação.

Eis, a propósito, um dos mecanismos políticos que tem vindo a ser demolido por Negri e por todo o pensamento político afecto à democracia radical. “A representação constitui hoje um bloqueio ao desenvolvimento da participação e vontade democrática que é há anárquica. Isto é um fenómeno com um impacto extremamente profundo”, disse em Lisboa. Há outras revisões da matéria dada. Pergunta da audiência: Como é possível hoje ser comunista? “Esquecendo a experiência do comunismo real. Hoje ser ‘comunal’ implica a crítica a patrões, a aristocratas e qualquer tipo de reis. A política é antes de mais uma ética, a construção de uma ordem a partir de baixo. Importa ir contra a alienação dos homens mediatizados. Importa procurar a segurança na realidade. Não a segurança do medo mas a segurança que vem da construção solidária. Daí a importância dos acampamentos” dos vários movimentos dos Indignados. E a esquerda? “A esquerda não existe. A esquerda são os que interpretam o poder de revolta dos pobres. Os estudantes ingleses em Tottenham, os jovens das banlieu de Paris. Se existe esquerda, ela está aqui.”

C.P.

 

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