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O cartaz da vida

São cenas do quotidiano as que, hoje, preenchem os espaços do Centro Comercial Teatro Capitol. Lugar que, em tempos, dava a oportunidade de ver as fitas que faziam abrir a boca de quem se surpreendia pela magia da sétima arte.

A 13 de Abril de 1931, rezam as crónicas, Maurice Chevalier em “The Love Parade” fazia as honras de abertura. A comédia musical, realizada por Ernst Lubitsch, caiu no goto de quem se deslocou até ao local e teve de desembolsar não mais do que 80 avos. O valor, agora, parece irrisório e não compra nada do que ali se vende, seja comida, bebida ou electrodomésticos. Isto sem esquecer as lojinhas de produtos cosméticos e de higiene que assumem, aqui, um sentido quase irónico.

Há degradação e abandono? Sim, há. No entanto, o edifício continua a cumprir um papel que, para quem ali trabalha, é tudo. O mesmo se aplica às vontades saciadas dos anónimos que preenchem um espaço outrora mágico, outrora grandioso.

Ainda hoje são visíveis estes aspectos, especialmente quando se passa a porta em arco da entrada principal. O estilo arquitectónico leva-nos até às primeiras décadas do século XX, época em que tantos teatros foram inaugurados por esse mundo fora.

No Capitol, porém, a história teve um final infeliz e, há quase 25 anos, o edifício foi fechado, passando, mais tarde, a ser um centro comercial. Hoje, assim permanece. Mas com especificidades, já que nem todas as superfícies com o mesmo nome estão cheias de cheiros e gostos como esta.

Isso acontece, contudo, somente no rés-do-chão. Em baixo, numa espécie de cave com entrada num dos lados do edifício, há outra dimensão. O olfacto e palato encolhem-se, dando lugar a outros dois sentidos: audição e visão.

Podia ser uma sala de cinema, igual à das matinées de outros tempos, onde foram sendo exibidos filmes históricos, como de cowboys, do Bucha e Estica e do Charlot. Todavia, é apenas um salão de jogos, meio vazio, onde um jovem descarrega os bolsos e a fúria vulgar da idade da borbulha.

Mais ocos ainda são os pisos superiores. Os três estão fechados e nada têm, além do acesso vedado através de umas escadas rolantes, paradas há demasiado tempo.

 

Pedro Galinha

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