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O regresso da palavra

Mais do que música, Leonard Cohen oferece-nos poesia. É assim desde 1967, ano em que editou o primeiro disco.

No final do mês passado, o músico e poeta canadiano decidiu – talvez obrigado por circunstâncias da vida – que era tempo de lançar novo disco. O resultado é “Old Ideas”, feito como queremos. Sincero e sofrido.

Num só álbum cabem 77 anos de história de uma vida, com tudo aquilo a que ela teve direito. Isto quer dizer que Mr. Cohen fala-nos de amor, fé, desejo e redenção.

Entre passagens sublimes, em que a palavra parece chegar de forma messiânica, há também lugar a uma escrita irónica. “I love to speak with Leonard/He’s a sportsman and a shepherd/He’s a lazy bastard/Living in a suit”, diz-nos em “Going Home”. Este é, aliás, o primeiro contacto com o 12º longa-duração do homem de chapéu negro que não editava qualquer disco desde “Dear Heather”, em 2004.

Segue-se “Amen”, que arranca de forma discreta na companhia de um banjo e órgão marcados pela sobriedade. Aqui, podia ser tudo perfeito, não fosse a canção arrastar-se por mais de sete minutos, caso único em “Old Ideas”.

No modelo de tournée apresentado recentemente por Cohen, “Show Me the Place” deve encaixar como uma luva. O mesmo se aplica a “Darkness” que tem ainda mais presentes os tão aclamados coros femininos – que nem sempre satisfazem os fãs de sempre – e um momento para o teclista brilhar.

Em “Anyhow”, o veterano declara “I’m naked and I’m filthy”, numa confissão que prossegue na acústica “Crazy to Love You” em que admite a exaustão, provada pelos espelhos que não o deixam esquecer-se da velhice.

Estas mensagens, a espaços, vão aparecendo ao longo do disco que, até ao final, tem ainda quatro canções. “Come Healing” parece ter sido roubada aos anjos, “Banjo” é cantada de forma magistral e “Lullaby” é isso mesmo. Um pedaço que nos embala até à derradeira “Different Sides”.

“Old Ideas” não será o melhor disco de 2012, nem é essencial na obra de Cohen. Mas, ainda assim, merece ser escutado porque significa uma nova etapa da vida do autor. Mais velho e sábio do que nunca.

Se tudo correr bem, o álbum terá direito a tour, com concertos semelhantes aos que Leonard Cohen fez em 2009 e 2010. Por essa altura, desafiou tudo e todos ao realizar espectáculos de mais de três horas. E só por uma ou duas vezes o corpo cedeu.

Quem tiver a sorte de ver Leonard Cohen pode contar também com uma bela surpresa. Entre as vozes femininas que o acompanham, como Sharon Robinson, Dana Glover e a colaboradora de longa data Jennifer Warnes, contam-se ainda as das Webb Sisters. Um duo inglês, cujo projecto sob nome próprio deve ser igualmente escutado.

Pedro Galinha

 

 

Old Ideas

Leonard Cohen, 2012

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