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Espiões comme il faut

A operação witchcraft tinha um objectivo concreto: descobrir quem era o informador dos sovietes, também agente infiltrado dos serviços secretos britânicos. Em termos latos, esta complexa operação de espionagem ambiciona um fim modesto, o de impedir uma terceira guerra mundial.

George Smiley já está reformado da vida de espião, mas é chamado ao activo para liderar uma equipa com a missão de descobrir quem é o agente duplo. Estamos em 1973 e a Guerra Fria dita o estilo. Em “Tinker, Tailor, Soldier, Spy”, a adaptação para o grande ecrã do livro de John le Carré, tudo é pálido, amarelado, sem brilho. Colin Firth anda por lá, interpretando Bill Haydon, o ‘Tailor’, mas é discreto e pouco galã. Estamos longe do James Bond, das Bond Girls e de todo o glamour que a espionagem e os serviços secretos tendem a envolver quando passados para o cinema. Aliás, neste filme de época praticamente não há mulheres, com excepção de uma beldade russa dona de um segredo poderoso. Entre os serviços secretos britânicos apenas Connie Sachs, uma mulher num mundo de homens cinzentos e que, talvez por isso, pareça, ela também, um tanto masculina. “I don’t know about you George, but I feel seriously under-fucked”, atira a agente afastada a Smiley, o herói menos carismático do cinema. Percebe-se bem porquê.

Mentimos quanto à falta de um James Bond sedutor. Ricki Tarr (Tom Hardy) não usa óculos de tartaruga, não tem 50 nem 60 anos e anda fugido de uma vingança previsível. Longe de ser peixe graúdo nos serviços secretos, Tarr é enviado para extorquir informações à tal russa, Irina (são sempre Irinas as russas belas e loiras). Mas como acontece numa boa trama de espiões, os dois envolvem-se. Ele consegue o segredo – a identidade do informador – mas carrega consigo um peso que nenhum agente secreto deve carregar: a preocupação com o destino e segurança da sua fonte, por quem nutre mais sentimentos do que desejava. Ao contar da sua fraqueza a Smiley, lágrimas caem-lhe pelo rosto: ela desapareceu e ele não sabe para onde, mas teme o pior. Irina volta a surgir mais à frente, mas para os dois não há final feliz.

A perseguição continua com Smiley a procurar as respostas e as punhaladas nas costas que compõem este thriller psicológico sem acção. Em peças de xadrez são coladas as caras dos principais intervenientes do jogo. Ele observa-as pousadas na sua secretária, como que antecipando a próxima jogada.

Tudo em Smiley contraria o seu nome. Ele é a contenção em pessoa, nem um músculo se move revelando emoção – e razões havia para isso, afinal, um dos seus homens traiu-o e este é um mundo de honra e lealdade. Até ao fim, até confrontar a toupeira infiel vendida aos sovietes, uma vez só o sobrolho se contorce discretamente e a cabeça baixa em tristeza discreta: quando se apercebe do envolvimento da sua mulher com outro homem. Afinal, os espiões não esperam jogo duplo de todas as frentes.

Inês Santinhos Gonçalves

Tinker, Tailor, Soldier, Spy

Tomas Alfredson, 2011

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