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O exercício da dúvida

A gente escreve sobre cinema porque acha que percebe alguma migalha de cinema. Porque a gente já viu cinema, a gente já leu cinema. A gente até já andou por aí a tentar cinema de câmara na mão.

Depois, há um realizador que enfia 12 homens dentro de uma sala e faz aquilo que julgávamos impossível. Claro que a gente conhece aqueles filminhos fracos filmados dentro de cabines telefónicas. Ou filmados numa fenda de montanha onde um homem leva 127 horas a desfazer-se do próprio braço. Ou ainda filmados dentro de uma espécie de urna, para contar a história de alguém que foi enterrado vivo. Costumam chamar-lhes filmes claustrofóbicos, são os tais thrillers em que a câmara costuma tremer muito e, regra geral, oferecem-nos grandes doses aborrecimento, bocejos de originalidade.

“12 Angry Men”, dirigido pelo laborioso Sidney Lumet, não só é anterior a todas estas trapalhadas como é, na verdade, bem diferente de todas elas. Henry Fonda é o motor de uma narrativa que reza assim: há um assassinato, há um presumível culpado porto-riquenho que é filho da vítima, há um júri que tem de decidir se o rapaz é ou não condenado à morte e enviado para a cadeira eléctrica. E há, pelo menos na consciência de um destes jurados (Fonda, um arquitecto ponderado) a sombra da dúvida, o peso de ceifar uma vida indevidamente.

O filme parte daqui para explorar a perversão do sistema jurídico e, em particular, do método norte-americano assente na deliberação por júri. A acção – num preto e branco que não é estilístico como os de hoje mas antes fruto da época e do orçamento curto de um filme rodado em apenas 17 dias – está toda nos diálogos. Os 12 homens falam e enquanto falam vão-se questionando uns aos outros e a si próprios, questionando as suas vidas, os seus preconceitos e a sua conduta.

Ao longo do filme conseguimos identificar dentro daquela sala (em que as pessoas não são nomes mas números) o perfil de cada um dos sujeitos. O violento, o inteligente, o ‘self-made man’, o displicente, o troca-tintas, o cruel e por aí fora. São estes homens, defeituosos e culpados à sua maneira, que estão ali para decidir sobre a vida de um outro. E que estão, alguns deles, dispostos a resolver a coisa o mais depressa possível, nem que seja para sair a tempo de assistir a um jogo de basebol.

O cinema, como a literatura, é sempre perspectiva (e cá estamos nós, mais uma vez afirmativos, a supor que sabemos sobre cinema). O cinema talvez seja perspectiva, pronto. Dentro de uma sala com 12 homens zangados, a câmara vai dançando e tomando diferentes pontos de vista. O espaço, propositadamente pequeno, nunca chega a sê-lo. O argumento, que é magistral e que vale a pena ler (está disponível online), vai serpenteando e dando espaço a cada uma das personagens.

Através deste exercício, “12 Angry Men” destapa o perigo das certezas absolutas, principalmente quando têm consequências irreversíveis. O facto de ter sido filmado ainda com a II Grande Guerra, o fascismo e o comunismo bem presentes na mente de todos, não deve ser desvalorizado. Há ali uma leitura política.

– Do you really believe he’s not guilty?

– I don’t know.

– After six days, he doesn’t know. In six days I could learn calculus. This is A, B, C.

– I don’t believe that it is as simple as A, B, C.

– I never saw a guiltier man in my life.

– What does a guilty man look like? He is not guilty until we say he is guilty. Are we to vote on his face?

– You sat right in court and heard the same things I did. The man’s a dangerous killer. You could see it.

– Where do you look to see if a man is a killer?

– Oh, well!

-I would like to know. Tell me what the facial characteristics of a killer are. Maybe you know something I don’t know.

A gente acha que sabe alguma coisa de cinema e do que é e não é clássico e moderno, e depois põe-se a ver um filme de 1957 e fica com a certeza (cuidado com o termo) de que nem da vida sabe uma migalha.

12 Angry Men

Sidney Lumet, 1957

 

Hélder Beja

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One thought on “O exercício da dúvida

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