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Um amor nunca vem só

João Paulo Cuenca, que esteve recentemente em Macau para o primeiro festival literário cá da terra, contou num dos jantares em que nos encontrámos uma história que explica o magnetismo do seu último romance. Quando o livro saiu no Brasil, este carioca e a sua editora mandaram colocar pelas ruas do Rio outdoors em que era possível ler apenas o título: “O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente”.

Aquela frase danada, contou Cuenca, desconfortou as pessoas, deu que falar. Que diabo, anda o cidadão a fazer pela vida amorosa, sem deixar passar um dia dos namorados e rosas vermelhas, e vem alguém dizer que tudo só está bem quando acaba em desgraça. A coisa fez furor por lá. Um furorzinho meio mórbido, mas furor.

“O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente” é um título grande e um grande título. Há livros assim, que começam logo no título, como este e como “E Se Eu Gostasse Muito de Morrer”, de Rui Cardoso Martins, sobre o qual também por aqui se escreverá em breve. E como muitos mais, está claro.

A gente vê este livro de J.P. Cuenca e já tem vontade de pegar. Mesmo antes de saber que a história se situa em Tóquio e que nos será introduzida pela boneca Yoshiko, propriedade do Senhor Okuda, poeta obscuro e conceituado, como são quase todos os poetas obscuros. Okuda deixou de escrever para o público e possui um sistema big-brother a que chama submarino e que lhe permite controlar a vida dos outros, em especial do filho. O filho é Shunzuke Okuda, um ‘salaryman’ que se apaixona pela gaijin Iulana Romiszwoska, que se fixa naquela mulher difícil de dizer e que os outros imaginam ser “uma daquelas modelos russas que terminam como putas no Japão”.

Este será o amor acidentado da história. Pelo meio, alternando entre registos e narradores, Cuenca apresenta-nos outros: o amor de Iulana pela dançarina geométrica Kazumi; o amor de Yoshiko pelo mestre Senhor Okuda, que é também a  sua casa e tudo o que uma boneca pode ter; e até o amor doente (como são os maiores e piores amores) do velho Okuda pelo filho Shunzuke.

Com descargas de imaginação que quebram todas as regras voltaicas dos sistemas eléctricos que conhecemos, passeamos por cenas realistas como duas mulheres fechadas numa privada de casa-de-banho, com uma a ajudar a outra a levantar o vestido para usar a sanita (e isto pode ser sensual e badalhoco ao mesmo tempo), para depois entrarmos em passagens delirantes com monstros de todas as cores.

Cuenca utilizou com argúcia os recursos que encontrou no lugar para onde viajou com o propósito de escrever este livro. “O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente” nasceu como os livros às vezes nascem nestes tempos modernos: por encomenda. O escritor é convidado a viajar até certa cidade, a instalar-se e a conhecer certa cidade, e a verter em palavras essa experiência. Só que o que às vezes pode correr mal, no caso de João Paulo Cuenca e de Tóquio resultou muito bem.

Das sopas em tubos de néon ao fugu-peixe-venenoso-e-saboroso – que é, de certo modo, a personagem omnipresente deste romance –, o autor brasileiro consegue os melhores momentos do livro quando se esconde atrás do filho Shuzuke. Através deste narrador que gosta da música de João Gilberto, Cuenca escreve reflexões hilariantes e felizes sobre a mulher japonesa e a mulher europeia, sobre o modo como um brasileiro acha que um japonês acha que os outros olham para ele quando é visto ao lado de uma gaijin.

O sexo, o amor, a violência e, em última análise, o acidente são os pilares deste livro que usa e abusa da repetição sem nos cansar uma única vez. Vamos reinventar a famosa frase da mentira muitas vezes repetida para fechar assim: uma frase boa muitas vezes repetida torna-se, lá está, ainda melhor.

 

Hélder Beja

 

 

O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente

João Paulo Cuenca, 2010

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2 thoughts on “Um amor nunca vem só

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