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A China em Paris 13

Os bairros da comunidade chinesa, os “sem papéis” à procura de uma vida melhor e a experiência dos estudantes que perseguem uma especialização fora. Yao Zhongbin escreve sobre a emigração. Fala hoje na Livraria Portuguesa.

 

Maria Caetano

 

Yao Zhongbin chegou a França em 2002. Sem dominar a língua e sem dinheiro suficiente no bolso para pagar os estudos que queria prosseguir, andou de biscate em biscate – empregado de restaurante, motorista de excursões turísticas – até reunir os oito mil euros necessários para frequentar um curso de Comércio Internacional em Paris. Ficou até 2008, e com a experiência escreveu três romances sobre a emigração chinesa para a Europa.

Yao está publicado no Continente – em chinês e em francês – e é frequente ser chamado a falar da sua obra e experiência de vida pela Alliance Française. Fá-lo novamente esta tarde, pelas 18h30, na Livraria portuguesa, numa altura em que o seu terceiro romance, “Le Métro de Paris”, está a ser adaptado para uma série televisiva.

“Há um jovem chinês que chega a Paris para ganhar a vida. Quando chega não tem nada. É detido pela polícia à chegada por estar ilegal. É sobretudo um romance realista que fala sobre a vida deste grupo de pessoas”, conta ao PONTO FINAL o autor que encontrou inspiração e motivo de curiosidade nos túneis do metropolitano parisiense onde que se cruzava, depois das aulas, com chineses “sem papéis”: “jovens da minha idade, de ar fatigado, a cheirar a fritos”.

“A comunidade chinesa em França é bastante heterogénea. Tinha bastante curiosidade e tentei saber porque havia ilegais que arriscavam tanto para ganhar a vida na Europa. Comecei a escrever um romance sobre este grupo de pessoas”, diz o escritor.

Yao faz notar que, apesar do desenvolvimento da China nos anos mais recentes, o movimento de emigração continua a aumentar. “A maioria das pessoas sai para estudar e para abrir negócios, mas há também uma parte que chega aos países de acolhimento de forma ilegal, sem documentos”, nota.

É sobre essa franja marginal da comunidade, com a qual Yao conviveu no 13º bairro da capital francesa ou na zona de Belleville – onde morou –, que  o autor fala. “Na Europa, são bastante pobres e é-lhes difícil encontrar um trabalho”.

A China, potência mundial emergente sobejamente analisada pela comunidade internacional, mudou desde que Yao Zhongbin deixou Paris – e com ela também o tipo de emigração que é feito em direcção à Europa. Há mais investimento, há cada vez mais homens de negócios.

Mas, ainda assim, o escritor admite que há uma imagem ultrapassada do país a perdurar no discurso dos media e na cabeça dos franceses. “As pessoas conheceram a China muito tarde, uma vez que os jornais, a televisão pouco falam sobre a China. O que fica é uma imagem da China antiga, que não corresponde à realidade. A China desenvolveu-se muito nos últimos anos”, entende.

Yao, hoje trabalhador de uma agência de investimentos de risco em Xangai, viveu ainda um pouco da experiência mais dura da emigração, embora estudante licenciado em Finanças que foi a França no âmbito de um programa académico.

“Trabalhei muito. Quando fui, não tinha dinheiro da família e tive de pedir um empréstimo ao banco. Daí, vi-me obrigado a encontrar um trabalho para me refinanciar. Foi necessário que me desenrascasse. Trabalhei muito, como em restaurantes, como chauffeur. Por isso, decidi contar uma história sobre um jovem chinês como uma situação semelhante à minha”, explica.

A ligação ao mundo financeiro é acumulada com a produção literária, que mantém desde muito jovem. “Adoro escrever. Publico artigos em jornais desde os 14 anos. Já no liceu publicava artigos num jornal local”, recorda.

Além de “Le Métro de Paris”, Yao Zhingbin é também autor de “Regarde la Rive Gauche sur la Rive Droite” e “La Rive Gauche de la Mediterranée”.

Os títulos estão publicados no Continente, não apenas em chinês, como também em tradução francesa. “Talvez um dia seja publicado em França”, espera Yao.

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