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Dama em apuros

Inês Santinhos Gonçalves

 

“Milk’s gone up: 49p a pint”. Um escândalo, quis ela dizer, de sobrolho franzido. Um escândalo, pensamos nós, que realmente esta inflação está que não se pode.

A subtileza da abertura de “The Iron Lady”, a mais recente biopic sobre Margaret Thatcher – feita por americanos, note-se – é de um detalhe delicioso. Logo ali, a abrir, o espectador começa a cantarolar a lengalenga dos recreios nos anos 1970 “Mrs. Thatcher, milk snatcher”, consequência da decisão da então ministra da Educação de abolir a oferta de leite nas escolas para as crianças dos sete aos 11 anos.

O filme é todo ele repleto de nuances, trejeitos delicados pelos quais Meryl Streep merece aplauso. Esta Thatcher é, claro, mais feminina, mais graciosa, mais bela, mas isso era de esperar e talvez até se recomende. O problema de “The Iron Lady” não se prende com o grau de sedução da Dama de Ferro, mas na simpatia, ternura quase, que ela desperta em nós. Falamos de uma das figuras mais controversas da política europeia, a mais conservadora dos líderes britânicos, uma mulher que muito ficou a dever à sensibilidade social. Mas no grande ecrã ela é, acima de tudo, uma velhota frágil em luto pelo marido.

Apesar dos constantes flashbacks que nos contam a história desde o início, da sua entrada na política à saída de Downing Street, esta é uma Margaret Thatcher pouco politizada. O ponto de partida do filme é arriscado, por ser muito próximo da realidade: a ex-primeira-ministra é hoje, na película e fora dela, uma senhora idosa que luta com sintomas de Alzheimer, retirada dos holofotes da vida pública e rodeada de uma equipa que gere as suas aparições ao milímetro.

Pelo ecrã passam acesos debates no parlamento, cenas de discriminação sexual, uma guerra nas Malvinas, ataques da IRA e um sem fim de lutas políticas para cumprir um objectivo: “It’s time to put the great back into Great Britain!”. Mas tudo isso parece abafado pela Thatcher dos dias de hoje e a sua enternecedora desorientação. Acima de tudo (e talvez erradamente) “The Iron Lady” é sobre o luto de uma viúva, incapaz de encarar a solidão. Anos depois de Denis morrer, continua a vê-lo, a ouvi-lo e a guardar religiosamente todos os seus sapatos, camisas e perfumes. Não é que Margaret não saiba que o marido morreu. Sabe-o, mas ainda assim, ouve-o. “I will not go mad”, repete insistentemente enquanto tenta ignorar a presença do fantasma. Noutra ocasião, já cansada daquela luta, diz-lhe “You’re dead Denis”. “If I’m dead, who are you talking to?”. Silêncio resignado. “Shall we dance?”. E os dois rodopiam pela sala cinzenta do apartamento londrino, por onde passam versões deles próprios décadas antes, jovens e apaixonados.

Nesta luta contra a velhice, contra a demência, contra a perda de faculdades e contra o esquecimento, Meryl Streep não falha uma. Orgulhosa e altiva, mas já cheia de tremuras e maneirismos próprios da idade, convence na interpretação. Já nas cenas em que retrata a Thatcher em funções de Estado, pequenas falhas revelam a nacionalidade da actriz. “Como muitas estrelas de Hollywood que fazem sotaques britânicos, é bem sucedida nos registos lentos e profundos, mas não nas interjeições mais rápidas e agudas que caracterizam um certo tipo de mulher inglesa”, aponta o crítico do The Guardian, Peter Bradshaw. E eles que são britânicos lá sabem. Note-se também que depois do treino que Thatcher recebe para ter uma postura mais adequada ao cargo que quer ocupar, numa cena muito à “The King’s Speech”, o seu tom de voz permanece exactamente o mesmo.

Uma frase sumariza a imagem que o filme faz passar: “A person’s life has to mean something”. É o que diz a jovem Margaret quando Denis a pede em casamento. Mesmo naquele momento pessoal, o carácter inflexível sobrepõe-se. Não serei, diz ela, mais uma dessas mulheres que apenas posam belas nos braços do marido. A vida de cada um tem de ter sentido, para além dos filhos e das panelas. Diz-lhe assim, de olhos grandes e azuis, doces naquela altura. Aquilo, sabia ele, era um aviso.

“The Iron lady” fez mais por Margaret Thatcher que qualquer campanha ou assessor político. Felizmente que é já tarde demais.

 

The Iron Lady

Phyllida Lloyd, 2011

 

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