Uncategorized

“Interessa-me fazer filmes verdadeiramente pequenos”

João Salaviza levou a Berlim “Rafa”. A curta-metragem marca o regresso do realizador português aos grandes certames internacionais, depois de ter conquistado, em 2009, a Palma de Ouro no Festival de Cannes com “Arena”.

 

Pedro Galinha

 

O passaporte de João Salaviza para o Festival de Cinema de Berlim chegou com a curta-metragem “Rafa”. Um filme que é também um miúdo de 13 anos apostado em sair de casa, numa noite de Verão, para procurar a mãe que está detida pela polícia no centro de Lisboa.

Nesta viagem, o jovem Rafa deixa para trás o seu bairro nos subúrbios, a ponte que cruza o rio Tejo e a infância que até então conheceu para viver uma experiência solitária, mas em liberdade.

Foi precisamente embalado pelo mais recente trabalho do realizador português de 27 anos que o PARÁGRAFO pegou no telefone e conversou com Salaviza. Isto em vésperas de partir para a capital alemã que, por estes dias, é também capital do cinema.

 

– No Festival Internacional de Cinema de Berlim estreia a curta-metragem “Rafa”, um projecto que já estava a ser preparado quando recebeu a Palma de Ouro em Cannes.

João Salaviza – Foi mais ou menos ao mesmo tempo. Pouco depois de eu finalizar o “Arena”, houve um período de pausa entre a sua estreia em festivais que serviu para perceber o que queria fazer. O projecto remonta a 2009, altura em que o comecei a escrever.

– O filme foi exibido no última sábado, dia 11. Já teve algum feedback?

J.L. – Soube que houve interesse das pessoas que viram o filme. Acho que a projecção correu bem, mas o mais importante é a estreia do filme com um público mais abrangente, não tão específico como é o caso de uma projecção de imprensa. Aí, a projecção é maior, com mais gente e não só realizadores. É um público mais vasto e, assim, percebo realmente como é que o filme se porta.

– Espera trazê-lo à Ásia?

J.S. – Ainda não há nada marcado. Só depois de Berlim é que as coisas se começam a perceber. Mas de certeza que estreia na Coreia, no Japão, na China.

– Esta é mais uma história rodada num contexto urbano, como a grande Lisboa, mas que está um pouco à margem daquilo que se assume como “normal”. Gosta de captar estas realidades?

J.L. – No caso do “Rafa”, filmei o momento em que o papel de responsabilidade dentro de uma família se reverte. É um miúdo que tenta ser o homem da casa. Sou uma pessoa que tem uma ligação muito forte com a cidade de Lisboa. Nasci e vivi em Lisboa praticamente toda a minha vida. Interessa-me fazer filmes verdadeiramente pequenos, dentro de casas, com miúdos. Não me interesso por narrativas muito épicas e aglutinadoras. O próprio modelo de produção dos filmes permite-me estar próximo de quem estou a filmar. Neste caso, um miúdo de 13 anos. Não tenho um programa. Não é uma coisa programática. Não faço um cinema social ou político. Não tenho essa intenção.

– Não quer mudar nada com o cinema?

J.L. – Seria muito pessimista se achasse que o cinema não interfere na vida de uma pessoa que vê um filme. No meu caso, aprendi muito com o cinema e continuo a aprender. Continuo a interrogar-me com alguns filmes que vejo, mas usar um filme como panfleto para veicular uma mensagem ou algum discurso, isso não me interessa. O cinema é fascinante porque é ambíguo, como a vida.

– Só procura mesmo manter a liberdade na criação?

J.L. – Eu gosto de fazer os filmes desta forma. Não gosto de um filme em que a voz do realizador se sobrepõe à inteligência e à sensibilidade do espectador. Nesse sentido, gosto de fazer filmes acreditando que há algum espaço para que cada pessoa se possa incluir no filme de alguma forma, à sua maneira. O acto de nos ligarmos ao filme passa sempre pela individualidade, por aquilo que nós somos. Os filmes que nos interessam provocam sempre reacções muito diferentes. Não gosto que toda a gente ria no mesmo momento e que toda a gente chore no mesmo momento. As pessoas são todas diferentes, logo vão-se relacionar de forma diferente com o filme.

– O cinema que faz é um cinema realista?

J.L. – Não sei se realista é a palavra certa porque o realismo pressupõe uma espécie de imitação da realidade e eu acho que o cinema é, às vezes, mais transcendente do que a realidade. O cinema reconstrói, organiza a realidade, apresentando-a de outra forma. São pessoas, são espaços. Pessoalmente, gosto, cada vez menos, de utilizar a expressão “realismo” ou até “naturalismo” porque acho que pressupõe essa mimética da realidade. Isso não me interessa tanto porque, depois, reconstruo tudo com os actores.

– Já que falamos nos actores, dá-lhes muita margem de manobra?

J.L. – A parte da construção da personagem é sempre feita com os actores. Aliás, uma grande parte do trabalho é feita por eles e outra por mim. Coloco sempre os diálogos que escrevo em confronto com as ideias do actor que vai trabalhar comigo. E, muitas vezes, percebo que o ponto de partida era apenas isso. Um ponto de partida. Não era interessante em si mesmo. Neste filme, mais uma vez, reescrevi diálogos com os actores.

– Costuma pensar em determinados actores para desempenhar os seus papéis?

J.L. – Em alguns casos sim. No “Rafa”, especificamente, não, porque eu não conhecia o rapaz que queria ter nesse filme. Quando escrevi a primeira versão, sabia que esse miúdo já existia. Pensava: estou em casa, a escrever alguma coisa e, eventualmente, isto vai transformar-se num filme. E, algures, há um miúdo que eu não sei quem é – e ele também não sabe quem eu sou – que vai fazer um filme comigo daqui a algum tempo. É muito bonito esse processo. De repente, quando se encontra, neste caso, o miúdo que vai fazer o filme… Assim que o vi torna-se tudo muito óbvio. Tudo muito claro.

– Foi um encontro por acaso?

J.L. – Nós procurámos um miúdo em vários sítios: bairros, campos de futebol, na rua. O Rodrigo Perdigão [protagonista de “Rafa”] foi encontrado numa festa durante os Santos Populares, por um amigo meu que trabalhou no filme. Viu-o na rua, conversou com ele e foi assim. Um encontro por acaso. Nunca na vida ele pensou entrar num filme e quando o abordámos ele também ficou estranho. “Porque é que estão a falar comigo?”

– Já tinha feito o mesmo em “Arena”.

J.L. – Foi um pouco o mesmo método.

É fácil trabalhar com estes jovens amadores, alguns deles oriundos de contextos sociais complicados?

J.L. – Não é fácil, mas eu também não tento controlar o trabalho deles. Esse descontrolo e essa coisa muito adolescente que eles têm – muito impulsiva e confusa – dão-lhes vida quando os filmo. Portanto, tento ao máximo que esses vestígios da vida deles continuem no filme. As personagens não são bem personagens. Não são bem eles próprios, mas também não são personagens. São um espaço intermédio em que uma realidade idealizada pelo filme se cruza com a realidade deles.

– Até agora, só falámos em curtas-metragens. E as longa-metragens?

J.L. – Em princípio, se tudo correr bem – com a crise a situação está um bocado complicada no Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) –, devo entrar em rodagem da minha longa-metragem no final do ano. É a primeira. Tem um título provisório, mas vai mudar de certeza. Como os guiões. Eu não parto para a rodagem para confirmar alguma coisa que eu tinha imaginado. É precisamente o contrário. Parto para a rodagem como um viajante que se aventura num sítio qualquer desconhecido e que vai à procura de alguma coisa, mas não sabe muito bem o que é. Regresso com alguma coisa e, às vezes, não é o filme que imaginava. É outro. Mais interessante, normalmente.

– A primeira versão deste guião foi escrita quando?

J.L. – Em 2010. Já vai na terceira versão, mas agora tenho de escrever mais. Há muitas coisas que ainda não estão como quero.

Depender de subsídios complica muito a vida de quem faz cinema?

J.L. – Em Portugal, já não basta existir muito pouco dinheiro para se fazer filmes – um filme custa dinheiro. Os sítios de onde chegam as verbas estão muito centralizados. Ao contrário de outros países onde há apoios locais, mecenato e apoio dos canais privados de televisão, em Portugal não existe nada disso para o cinema. Agora, há uma lei nova que está a ser discutida e, aparentemente, estão algumas coisas interessantes em cima da mesa. Há alguma expectativa por parte do sector para que alguma coisa mude daqui para à frente. Chegámos a um ponto que se tornou insuportável fazer cinema. Não há dinheiro. Há 15 anos que o valor de apoio do ICA não é aumentado. Nas longas-metragens, para a primeira obra, o subsídio anda à volta dos 500 mil euros. É um valor muito pequeno, quando comparado – e já nem falo de um filme norte-americano – com um filme espanhol, francês, inglês, italiano, húngaro, de onde quer que seja.

As co-produções aparecem em boa hora?

J.L. – Pois. No caso do “Rafa” só me foi possível fazer o filme porque conseguimos uma co-produção em França. Tecnicamente, o filme é luso-francês, embora seja todo falado em português e filmado em Portugal. Há vários membros da equipa que são franceses e parte da pós-produção foi feita em França. Imagem e som foram feitos em Paris.

– O nível que encontrou em França é superior ao de Portugal?

J.L. – Em termos de meios técnicos, há mais estúdios, mais sítios onde fazer as coisas e o material é bom. Em termos humanos, acho que não. As pessoas que trabalham em cinema em Portugal são normalmente muito profissionais, rigorosas. Os filmes portugueses têm uma tradição de muita liberdade, mas ao mesmo tempo de muito rigor, muita precisão. A nível técnico e artístico. Pensamos no Manoel de Oliveira, Pedro Costa, João Pedro Rodrigues, Miguel Gomes, João Canijo, Marco Martins. São todos realizadores que trabalham com muito rigor e precisão. Portanto, é óbvio que isso seja abrangente a toda a comunidade do cinema. Aos directores de fotografia, engenheiros de som e por aí adiante.

– Apesar das dificuldades, augura um bom futuro para o cinema português?

J.L. – Acredito que os realizadores portugueses fazem filmes absolutamente incríveis. É quase um milagre termos sucessivamente filmes em Cannes e Berlim. Ainda agora no Festival de Roterdão havia nove filmes portugueses. São números que devem ser comparados com cinematografias muito maiores do que a nossa, como a espanhola ou a inglesa. Não sei se este ano há mais filmes ingleses e espanhóis em Berlim do que portugueses. Estamos a falar de países que fazem 200 filmes por ano e nós fazemos dez. Isto significa alguma coisa. É preciso o mínimo de condições para que estes filmes continuem a ser feitos. Tenho alguma esperança que a nova lei venha devolver alguma dignidade que se tem vindo a perder ao longo dos últimos anos em termos de apoios.

– Cresceu num ambiente cinematográfico. Isso foi fulcral no percurso que escolheu seguir?

J.L. – Influenciou bastante porque o meu pai [José Edgar Feldman] sempre trabalhou em cinema, televisão e fez documentários. Nos últimos filmes do Paulo Rocha, por exemplo, tem trabalhado como montador. Não foi uma influência forçada porque sempre tive a liberdade de fazer aquilo que quisesse. Mas, na verdade, cresci rodeado de filmes. Lembro-me do meu pai ter uma mesa de montagem antiga em casa e eu ouvia a repetição de planos durante um dia inteiro. Também via filmes do Kiarostami quando eles ainda davam na RTP2. Portanto, isto influenciou-me e com mais ou menos 18 anos decidi que queria fazer cinema. Aí, comecei a aperceber-me que fui beber muitas das coisas que via em casa.

– O seu pai é um bom crítico?

J.L. – Nós temos muitas conversas sobre o nosso trabalho. Ele é quase o primeiro crítico. Sabe, quando lê um guião escrito por mim, a razão de eu executar algo de uma forma em particular. Tenho uma sorte tremenda de o meu pai perceber o que faço.

 

O desconhecido que conquistou Cannes

 

– Aos 25 anos venceu a Palma de Ouro para melhor curta-metragem. Foi difícil regressar à Terra depois disso?

J.S. – Fiquei um pouco surpreendido porque normalmente não é dada atenção ao cinema português. O meu filme recebeu muita atenção. Mas não tanto pelo filme em si, mas mais pelo que conquistei. Por um lado, claro que fico extremamente feliz por saber que muita gente viu o filme e que se calhar não o iria ver se  o prémio não tivesse chamado a atenção. Por outro lado, acho que foi um pouco perverso. É preciso acontecer uma coisa destas para que haja interesse.

– Ainda se sente colado à imagem do “realizador que venceu a Palma de Ouro”?

J.S. – Há muita gente que vê tudo à luz do filme que conquistou a Palma de Ouro. Surgem sempre comparações: “melhor, pior, diferente”. Há sempre o estigma de ser visto em comparação. Com o “Rafa” espero que tudo corra bem e que isso deixe de ser uma coisa que me persegue pelos maus motivos.

– Mesmo assim, gostava de voltar a ganhar um grande prémio de cinema?

J.S. – Claro. Estaria a mentir se não dissesse isso. Mas os prémios são coisas secundárias nos festivais.

– Para Berlim não se vai esquecer de levar papillon, como aconteceu em Cannes [à última hora arranjou um]?

(risos) Acho que em Berlim a coisa é mais informal. Se puder ir de calças de ganga e sapatilhas é preferível. Não me sinto muito confortável naquele traje. (risos)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s