Uncategorized

Sonhos de veludo

Embrulhado de vermelho tudo parece melhor. Daquele vermelho sangue, intenso, apaixonado, dado a emoções fortes. Ao passar ali, na Estrada do Repouso, é esse vermelho que os olhos abraçam com sofreguidão. O vermelho dos sonhos antigos, do glamour de tempos idos, do chique deliciosamente decadente.

É um vermelho de veludo, como deve de ser. Um vermelho interior, da intimidade e da escuridão afável. Que casa na perfeição com o edifício de Art Déco que o acolhe – juntos vivem um amor exacerbado desde 1952, quando o Cinema Alegria ali nasceu. Hoje é o mais antigo cinema sobrevivente da cidade.

Abriu pomposamente com o documentário “A China Libertada”, numa altura em 800 almas cabiam sentadas na sala. Foi patriota de coração, passou filmes da China, Rússia, Coreia do Norte, Vietname. Em 1955 assistiu a momentos de trágica acção: foi invadido pela polícia portuguesa quando passava o filme chinês “Unidos para o Amanhã”. Empregados e audiência foram agredidos e alguns detidos. Sintomas de uma Revolução Cultural em lume brando.

Hoje, mais de cinco décadas passadas, o Wing Lok (literalmente, Felicidade Eterna) consegue um feito raro: a capacidade de se manter parado no tempo, apesar de uma renovação em 2005, de novas salas e de mais lugares sentados. Apesar de deixar os clássicos patrióticos de parte e exibir produções que, não querendo ser irónicas, o são – “Mr and Mrs Gambler” é, por estes dias, cabeça de cartaz.

Não há pipocas, mas há sumos e cafés. E uma balança, das antigas, para controlar os excessos. Lascas de tinta vermelha (claro, está) transportam-nos para uma época em que nem tudo era automático e digital, para uma altura em que ponteiros a rodar causavam ansiedade.

Não é de museu esta balança, como não é de museu este cinema. Um homem, talvez aconselhado pela esposa zelosa, sobe o degrau para descobrir se tem de cortar no arroz frito. Coloca a moeda e espera.

Pelo átrio do Alegria repousa uma calma expectante. As bilheteiras, vazias, aguardam filas de cinéfilos. Os mapas da sala estão abertos, à espera de quem lhes aponte o dedo e peça, com jeitinho, para não ficar na primeira fila e, se possível, evitar as pontas, que as colunas incomodam.

A pressa, diz o povo, é inimiga da perfeição e é por isso que por ali o ritmo abranda. Os bilhetes artesanais são quase coleccionáveis, com os lugares escritos à mão, por cima do papel branco e vermelho. São passes de entrada para um mundo que já não existe nas cidades modernas, um mundo em que o cinema tem estatuto de arte, onde não se fazem downloads, onde não há pixel que salte à vista. Um mundo onde entramos, majestosamente, por cortinas vermelhas, dessas de veludo, cor de sangue, cor de drama e tragédia, cor de paixão, que se abrem para nos revelar, numa sessão de hora e meia, os segredos escondidos dessa coisa que é a magia do cinema.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s