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Tudo menos Common

Para quem não sabe, ele faz questão de avisar: “For the world, world, world…/My name is Common.” E Common, explicamos nós, é um rapper, poeta, activista, actor e também modelo da GAP que, no final de 2011, assinou “The Dreamer/The Believer”.

O nono álbum deste homem de mil ofícios, nascido em Chicago, deixa cair o blusão azul de “Universal Mind Control” (2008) – disco de base mais electrónica que dividiu os fãs e a crítica – para voltar a vestir-se de palavra, de esperança. Isto é, aliás, prontamente audível na primeira faixa, “The Dreamer”. Aí, autoproclama-se um sonhador, tal qual os seus antepassados que a poeta e activista norte-americana Maya Angelou exalta, declamando, no cair do pano da canção – “We are here alive today because our ancestors dared to dream”.

Mais político e interventivo do que muitos dos seus parceiros de rimas, Common ou Lonnie Rashid Lynn Jr é filho de uma professora, de um ex-basquetebolista da ABA (antiga liga norte-americana de basquetebol que antecedeu a NBA) e de toda uma geração que lutou pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Talvez por isso, desde 1992, ano em que se estreou com “Can I Borrow a Dollar?”, manteve uma matriz interventiva e política no seu discurso, demarcando-se do “gangsta rap” que, naquela altura, emergia e conquistava milhões e milhões de ouvintes, e milhões e milhões de dólares.

Do início de carreira do norte-americano, “The Dreamer/The Believer” não tem apenas a alma. A produção do álbum esteve a cargo, mais uma vez, de No I.D., ele que foi o mentor de Kanye West nos primeiros anos. Ou seja, há muito do “old school hip hop” pelo qual tantos desesperam nos dias de hoje.

O primeiro safanão que é dado chega com “Ghetto Dreams”, que tem um extra de nome Nas. Com Common, cantam-se “nigga dreams”, acompanhados de um piano viciante e de uma batida que invade o corpo. Depois, uma recordação. Lembram-se dos Electric Light Orchestra, também conhecidos por ELO? No meio da discografia dos britânicos há uma canção chamada “Mr. Blue Sky” que, no último longa-duração de Common, é recuperada para “Blue Sky”. A ouvir.

“Sweet” é um dos momentos altos e não é preciso dizer muito, porque o rapper atira “I’m to Hip-Hop what Obama is to politics”. Segue-se “Gold” que nos prepara para um feliz encontro com Curtis Mayfield, em modo sample no registo “Lovin’ I Lost”.

A partir da segunda metade, o disco é feito do melhor e do pior. Em “Raw (How You Like It)” deparamo-nos, possivelmente, com a melhor faixa de “The Dreamer/The Believer”, já que tem tudo: groove, menina afinada nos coros e muito, muito funk. “Cloth” até prossegue a boa onda do álbum, mas “Celebrate” faz com que a coisa descambe. O mesmo se pode dizer de “The Believer” que abre com John Legend, quase épico, a cantar “I believe in the light that shines and will never die/Oh I believe the fire burns, we stay alive”.

O desfecho pode não ser o melhor, mas o que realmente fica do último álbum de Common é razão de júbilo. O homem redimiu-se da personagem que quis encarnar em 2008 e apresentou uma obra plena de paixão, com tudo aquilo que o hip hop tem de melhor.

 

The Dreamer/The Believer, 2011

Common

Pedro Galinha 

 

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