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Lição a vermelho

A vida pode levar-nos a escrever em português sobre um filme francês com uma actriz (e que actriz!) italiana, sentados num hotel de charme que um tipo canadiano tem numa pequena aldeia da China. A vida consegue ser muito maior e imprevisível que o cinema – e é por isso que o cinema nos espanta (e não apenas entretém) quando consegue captar a vida.

Acabámos então a ver “Irreversível” num hotel de charme com vista para um afluente de um rio chamado Li e usando um aparelho de DVD provavelmente fabricado no Japão. Mas nada disto impediu que Monica Bellucci fosse violada na mesma.

Costumam elencar-se por aí três momentos-chave neste filme de Gaspar Noé: a cena em que Alex (Monica Bellucci) é violada e brutalmente espancada numa passagem inferior com as paredes pintadas de vermelho; a cena em que uma cara é esmagada por um extintor vermelho; e a cena em que Alex e Marcus (Vincent Cassel) andam nus por casa e levam o filme para níveis de erotismo muito próximos do vermelho. A estas acrescentaríamos a cena de Monica Bellucci a dançar com um vestido que não é vermelho mas que é como se fosse. E até: todas as cenas em que Monica Bellucci é Monica Bellucci, ou tenta ser Monica Bellucci ou nos faz pensar em Monica Bellucci.

“Irreversível” é um filme aos trambolhões que se transformou em filme de culto por ser um filme aos trambolhões, por inverter todas as regras, por nos transportar literalmente do fim para o princípio – o filme começa com os créditos finais e com a cena logicamente final –, por filmar de pernas para o ar e abusar nos efeitos de câmara.

“O tempo destrói tudo” é a frase fundadora desta fita. É precisamente manipulando o tempo através do cinema que Noé filma esta história de uma mulher bela e bem-sucedida, que acaba a ser tomada por prostituta de luxo e estuprada por um desconhecido, como que para deixar de ofender os outros com a beleza que passeia por ali àquelas horas da noite.

Os sucessivos flashbacks que nos transportam até ao começo da história mostram-nos a busca descontrolada que Marcus e Pierre (Albert Dupontel) fazem ao violador e que os leva ao Rectum, um bar gay e sado-masoquista alojado nas catacumbas de Paris e de uma certa ideia de condição humana. A sequência filmada no interior desse Rectum é, em termos estéticos, uma ode impressionista ao serviço do fetichismo e da lascívia.

“Irreversível” transformou-se em filme de culto porque é mal comportado e assente numa dose interessante de originalidade. E porque é um filme cru, que mostra Monica Bellucci a ser brutalmente violada numa passagem inferior com as paredes pintadas de vermelho durante longos minutos. Até pode parecer que nos repetimos, mas este é um daqueles filmes que não existiria se não existisse uma determinada cena (esta cena) e uma determinada cor (o vermelho que é também do sangue que sai de dentro de Monica Bellucci).

O realizador tenta mostrar-nos que há coisas que não acontecem apenas aos outros e que o imponderável está por toda a parte, sempre abraçado ao acaso, nem que seja numa pequena aldeia chinesa com vista para um afluente do Rio Li.

 

Hélder Beja

 

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One thought on “Lição a vermelho

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