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E se tu gostasses muito de morrer

Como escrever um livro com o pé esquerdo um bocadinho de fora? Sabes, aquele pé que à noite tiras debaixo dos cobertores quando começas a ficar com calor, quando alguma cena não está bem, quando tens vontade de dormir e não consegues. Como escrever para dar um sentido qualquer às coisas?

Rui Cardoso Martins começa por fazer-te acreditar que vai só desprender uma ponta do lençol e contar uma história que, como alvitra o título, há-de ter que ver com gente que se mata porque lhe apetece morrer. Cada um haveria de estar no direito de fazer o que bem lhe apetece. Um quer uma mini e uma sandes de presunto, outro quer atar a corda ao pescoço e enforcar-se. Pois seja.

O que Rui Cardoso Martins não anuncia – nem tinha como, porque é mesmo preciso ler tudo – é que vai desfazer a cama, desarrumar o quarto e armar uma rebaldaria em forma de livro, que é principalmente uma imagem do Portugal deste homem nascido e medrado em Portalegre, antes de rumar aos ares sofisticados da capital.

“E Se Eu Gostasse Muito de Morrer” é um livro que te dá vontade de rir e de chorar, sem que haja qualquer ordem aritmética para o que vai acontecer a seguir. E sem que nunca te seja dito que és mais feliz porque ris e menos porque choras. Há por aí muito quem se mate com um sorriso nas faces.

Ainda assim, os destinos de uma terra onde até o coveiro se mata não estão lá muito famosos, deves concordar. Vais sabendo desta história e de tantas outras pela boca do Cruzeta, que é também o Esqueleto e o Homem Elástico e que leva uma coisa no bolso. “Quem é capaz de me derrubar ao murro: são todos. Mas receia-se a minha cabeça nas lutas de marrada da praceta, testa contra testa. Sou o Bife Duro nesse aspecto, deixo as cabeças mal passadas na praceta do Camões.” (p. 17)

É muito mais fácil ler este livro do que escrever qualquer coisa que o nomeie e lhe faça jus. Lá dentro, a linguagem tanto te diz m-e-r-d-a e te introduz ao triunfo literário da linguagem oral, como te revela segredos em frases poéticas – “Olhos são buracos de filtrar tragédias num fio de luz” (p. 37) e te explica as especificidades das cabeças pensantes consoante os lugares: “Três valores em vinte, pelo menos, evaporam-se ou derretem no exame, não é só ignorância, tente-se explicar a Crítica da Razão Pura a grelhar ao sol, ou o teorema de Pitágoras. O quadrado do quadrado do quadrado igual ao quadrado. A porra da metafísica que se encontra numa sala a 47 graus centígrados.” (p. 39)

E se tu gostasses muito de morrer terias várias formas de fazê-lo, como bem sabes. No livro fala-se de algumas delas, do 605 forte, da corda pendurada, dos comprimidos e do tiro na mioleira. E também se fala daqueles que, felizes coitados, recebem uma ajudinha nestas tarefas de rapaziada que tem mais vontade de matar que de morrer. Está tudo nas estatísticas, números são números e dizem que não é só lá no frio da Suécia que eles caem como tordos. O calor alentejano é lixado, pois é.

Com a morte não se brinca, como te ensinaram desde pequenino mesmo quando tu ainda só associavas a palavra brincar com os putos da tua rua e nem sabias que era possível brincar com uma senhora tão importante como a morte. Rui Cardoso Martins não brinca com a morte neste livro, porque isso não é nada. O que ele faz é brincar com a vida.

Muita gente brinca com a vida todos os dias em lugares simpáticos a que demos o nome de trincheiras. Se calhar também lá andaste, ou o teu pai ou teu avô, naquelas da guerra colonial que também cabem neste livro. Muita gente brinca com a vida em lugares simpáticos a que demos o nome de igrejas, onde bispos se escondem atrás de uma camada de respeitabilidade às vezes podre que também cabe neste livro. Muita gente brinca com a vida em lugares genuínos como as tascas e os montes onde a loucura e o abandono são bandeiras nacionais e alguém pode morrer por tropeçar numa pedra – uma morte bem bonita, convenha-se.

Já terás percebido que este é um livro espantoso de um homem que nunca tinha escrito um livro antes e que esperou tempo suficiente para fazê-lo. Não que isto seja atestado para coisa alguma, mas este é um livro de que até o António Lobo Antunes gostou – e toda a gente acha que sabe como o Lobo Antunes tem dificuldade em gostar. Eu também gostei e isso é ainda um atestado menor. Mas se queres ler um livro a sério de um autor a sério sem precisar de ser sempre sério, diz alto “E Se Eu Gostasse Muito de Morrer”.

A morte nunca se vestiu tão bem.

Hélder Beja

E Se Eu Gostasse Muito de Morrer

Rui Cardoso Martins, 2006

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One thought on “E se tu gostasses muito de morrer

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