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Novo fôlego

É certo que depois de editarem “Waiting for the Moon”, em 2003, os Tindersticks nunca mais foram os mesmos. Desde logo, porque ao hiato da banda – que deu para Stuart Staples embarcar em projectos a solo – seguiu-se a debandada de três elementos, em 2006, que também eram a alma dos senhores de Nottingham.

Ainda assim, houve quem não arredasse pé e, com o tempo, seguiram-se álbuns. Até hoje, foram três e o mais recente, dado a conhecer no início desta semana, dá pelo nome de “The Something Rain”. Com ele, chegam memórias e juízos de valor que nos confrontam com “Curtains” (1997), “Simple Pleasure” (1999) e “Can Our Love” (2001). Sim, foram belos discos, talvez dos melhores que se ouviram naqueles anos. No entanto, antes de partir para o novo álbum dos Tindersticks, esqueça os méritos do passado, até porque este pode ser um dos melhores discos que por aí anda neste ano.

Mais uma vez, a palavra e a voz de Staples são viciantes. E o homem das patilhas, claro, faz por isso. Mas vamos por partes e comecemos pela canção mais atípica de “The Something Rain”, pela forma e pelo conteúdo: “Chocolate”.

A receita, que demora mais de nove minutos até ficar pronta, tem como base umas gramas de amor e outras tantas de melancolia, coisas que polvilham sempre a obra dos britânicos. A isto juntam-se uns saxofones que funcionam como fermento. Com eles, aos seis minutos e pouco, a coisa cresce, ganha força. Força que também chega pelo verbo, aqui somente falado.

A partir daqui, o disco corre como um riacho, sempre reverente a uma soul sombria e a diversos ritmos. “Show Me Everything”, a segunda canção do disco, tem um belíssimo órgão Hammond, umas cordas de sonho e ainda os coros femininos de Gina Foster.

Depois, há “This Fire Of Autumn”, um dos grandes momentos do disco e da discografia recente dos Tindersticks, que abre caminho à placidez de “A Night So Still” – hino à nostalgia.

Até aqui, não nos sentimos defraudados com o tempo que já dispensámos para escutar um álbum obscuro, mas ao mesmo tempo sedutor e que nos reserva surpresas como “Slippin’ Shoes”. Vai um passinho de dança?

A contemplativa “Medicine”, primeiro single do álbum, arrepia e serve de cama a “Frozen”, mais experimental do que as suas antecessoras e com um refrão obsessivo em que Stuart Staples repete incessantemente “If I could just hold you”.

Para o final, estão reservadas ainda duas canções. Primeiro, a gloriosa balada “Come Inside” e, depois, a instrumental “Goodbye Joe” que encerra o nono álbum dos Tindersticks com uma certeza: a reinvenção não é inimiga da beleza.

The Something Rain, 2012

Tindersticks

Pedro Galinha

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