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Pequeno-almoço at Sagres

E por cá nos achamos de novo, a levar com uma desinteressante chuva e, adivinharam, surpreendidos por uns espasmos urbano-depressivos (do inglês, spleen; do português, azia, e não Asia, do inglês) que, em calhando no sistema e encalhando na vida, se acalmam com uns gastos à medida do tédio de cada um. Há coisas extraordinárias no trabalho e uma delas é pensar que é absolutamente necessário chegar ao mês seguinte para conseguir calçar com confortável autonomia uns Christian Louboutin – os únicos, os Pigalle, 36, pretos, 12 centímetros de salto e cinco mil patacas de queda.

Uma das minhas afinidades idem idem, aspas aspas com a Holly Golightly (cf. Audrey Hepburn, Breakfast at Tiffany’s sic CAPOTE, Truman) é que também se me descem os reds. Os blues sobem-se-me. Somos camaradas nisto: “Well, when I get it [the reds] the only thing that does any good is to jump in a cab and go to Tiffany’s. Calms me down right away. The quietness and the proud look of it; nothing very bad could happen to you there”. O estou deprimida e vou às compras versão retro chique conduziu-me ao boulevard (do português, vou levar-te) ali metido entre dois casinos, que responde por Avenida de Sagres, para ver como param as modas. Está um ambiente sossegado e altivo, mas continuo convencida que me vai acontecer qualquer coisa má.

De sandes pacífica de atum na mão e café na outra, tal como no filme (à excepção das pérolas, que, à Holly Golightly da Areia Preta, são vermelhas e de plástico) detenho-me na vitrine que desfruto como espelho da relação mais duradoura das mulheres com quem me tenho cruzado nestes últimos quatro anos. Ei-la: castanha e desmedida, com as inevitáveis iniciais LV, desengonçada no topo de um cupcake (do inglês, cupcake). E ei-la de novo num pulso elegante, que caminha a toque de caixa de umas calças pretas, roçadas no bolso por uma outra LV, de porte varonil e onde se adivinha um dragão em notas.

Saltamos de mundo em mundo e as manifestações da pequena riqueza continuam a ter paralelo, no tempo e no espaço. Das sólidas autarquias lusas às terras do Santo Nome de Deus, lá estão elas, redondas, esguichadas e urbanisticamente galhofeiras, as rotundas, aperfeiçoadas pelas maçadoras palmeiras. (Juro: dou por mim a imaginar um indivíduo de casaco de cabedal castanho e camisa de bico, a colar na porta do prédio: ‘Sociedade Import/Export – Palmito’s’). A palmeira é a primeira coisa que o novo-rico urbano/rural planta – tal como o fato preto (em alternativa, cinzento) e que compromete os espíritos formais e escuros que fazem comigo a Avenida de Sagres, e que dobram a espinha à cacimba.

A chegada à outra ponta do bouvelard importado coincide com a hora de almoço e a chegada de alguma cor às margens urbanas do Rio das Pérolas. Colarinhos amarelos e azuis repousam a vista no imenso cinzento do rio, à procura do horizonte possível nesta aborrecida tarde de névoa, enquanto alimentam o estômago e a alma, entre investidas no ta pau e palavras enviesadas com quem se vai acercando.

Afastados do cenário de prazenteiro convívio no intervalo do trabalho à porta do casino, dois pezinhos nus e de solas sujas descansam ao lado de umas botas. Denunciam um corpo acolhido num banco, adormecido num casaco lhe que cobre o rosto e a identidade, como que a lembrar que à porta da Tiffany’s o mundo é o que é, na sua divisão entre pessoas legais e as outras – e até a Holly aprendeu que ‘people do belong to people’. Foram-se-me os reds, subiram-se-me os blues. Há coisas extraordinárias no trabalho e uma delas é pensar que é absolutamente necessário mudar o mundo.

Sónia Nunes

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