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“A perda de escala é que faz as pessoas reflectirem”

É conhecido pelas fotografias de quatro metros captadas por uma máquina gigante sem lente, embutida no camião que usou para percorrer o Brasil. Mas Mica Costa-Grande é mais, muito mais. Depois de mais de 70 países visitados, sempre com a família atrás, o fotógrafo regressa a Macau, onde tudo começou, para uma exposição e um workshop.

Inês Santinhos Gonçalves

Nas veias do fotógrafo Amílcar Costa-Grande – ou Mica , como se apresenta – corre sangue de navegador. Desde os 21 anos que percorre mundo, primeiro com a mulher, depois com os dois filhos. A diferença é que estes Vascos da Gama, como já lhes chamaram, desbravam o globo por terra, sempre por terra.

A primeira viagem levou-os a Macau, mas foi por acaso. Começou com uma ida à Suíça, no tempo em que o casal se orgulhava de levar uma vida quase hippie, ao volante de uma Volkswagen dos anos 1960. Foram ficando, ficando, colheram fruta, trabalharam em estâncias de esqui e o dinheiro que entrava permitiu o prosseguir da viagem. Da Turquia “escorregaram” até ao Médio Oriente e de escorregadela em escorregadela passaram pelo Irão, Paquistão, Índia e por fim Macau, por onde ficaram mais de uma década.

Mas quem tem bicho carpinteiro sabe que é coisa que dá e fica. Os filhos Elói e Sásquia nasceram, cresceram (mas não muito) e o casal voltou a fazer as malas. Ele fotógrafo, ela jornalista, começaram então uma volta ao mundo que durou 12 anos, quatro deles no Brasil, percorrendo os 27 estados do país.

O projecto tornou-se a imagem de marca de Mica Costa-Grande. Em “O Brasil pelo buraco de uma agulha”, a família viajou a bordo de um camião de 17 toneladas com um apetrecho muito especial: uma máquina fotográfica pinhole gigante.

Mais de uma década depois, o fotógrafo regressa a Macau, onde vai desvendar os mistérios da máquina ‘buraco de agulha’, no workshop “Câmara Precária”, a decorrer entre 2 e 10 de Março no Museu de Arte de Macau. No dia 1 de Março inaugura também a sua exposição “Deambulações – Fotografias de Mica Costa-Grande”, um conjunto de imagens que captou nas viagens pela Ásia, durante os anos em que viveu em Macau.

Fecha-se, assim, um círculo perfeito. O fim da volta ao mundo termina aqui, onde há 12 anos começou. E é novamente em Macau que Mica Costa-Grande decidirá o novo destino da família.

– Viveu 13 anos em Macau, partindo no ano 2000 para uma volta ao mundo. Pode dizer-se que Macau foi o início da aventura?

A.C.G. – Saímos com o intuito de fazer uma volta ao mundo que durasse uns três ou quatro anos, com dois filhos, e acabou por durar 12 anos. Eu e a minha mulher já tínhamos ido por terra até Macau. Saímos muito jovens do norte de Portugal e chegámos aqui pelas portas do Cerco. Depois de aqui estarmos 13 anos, quando as crianças já tinham idade [que permitisse] pegar nelas e sair de novo, saímos para dar essa volta que agora concluímos. Depois de estar em Macau, vamos dar um pulo à Indonésia, em Maio. Mas basicamente foi uma volta ao mundo linear, entre a Ásia, Europa, as Américas e de volta a Macau.

– Que influência teve Macau na sua carreira como fotógrafo?

A.C.G. – Macau é o berço da nossa actividade como profissionais. Saímos como estudantes de Portugal, abandonámos dois cursos ligados às artes, tanto eu como a minha mulher. Quando chegámos a Macau, foi o início das nossas carreiras. Eu comecei a ensinar fotografia na Robert Ho Tung, que depois virou a escola de Artes do Instituto Politécnico.

– Em que consiste o workshop que traz ao Museu de Arte de Macau?

A.C.G. – Nos últimos quatro anos fiz um projecto, no Brasil, que consistiu em viajar com uma máquina fotográfica de peso pesado, é um camião de 17 toneladas em que toda a caixa foi transformada numa máquina fotográfica. Portanto, faço negativos de grande formato, talvez os maiores negativos feitos por uma máquina móvel – têm 4,20 metros por 1,30 metros, directamente da realidade, como aquelas máquinas de jardins ‘à la minute’ mas de tamanho gigante. Na sequência desse trabalho comecei a fechar espaços, sejam eles móveis ou imóveis, e a fabricar máquinas fotográficas onde as pessoas possam caminhar dentro. As pessoas vêem o processo fotográfico a acontecer à frente dos seus olhos, a imagem entra por um orifício, não precisa de nenhuma lente, nenhuma ajuda óptica, simplesmente um buraquinho na parede. É isso que vou fazer em Macau. Vou fechar uma área disponível no museu e vamos fabricar máquinas fotográficas à escala humana, não no sentido de portabilidade, mas de se poder entrar dentro delas.

– E a exposição inclui fotos desse seu trabalho?

A.C.G. – Não. Foi sugerido que fizesse algo sobre o meu trabalho na Ásia. Em números redondos, quatro dos 13 anos que passámos em Macau correspondem a viagens que fizemos pela Ásia, principalmente à volta dos Himalaias, Tibete, Ladakh, Birmânia, Camboja, todo o sudeste asiático e o centro da Ásia, principalmente o centro asiático chinês e indiano. Isso corresponde ao meu trabalho fotográfico de 1986 a 2000.

– Essas fotos são também de grande escala?

A.C.G. – Não, estas são fotografias convencionais, ainda de máquinas analógicas, com tamanho comum. Algumas a cores, outras a preto e branco. São basicamente fotografias documentais com um pendor mais estético e menos informativo, o enquadramento e a luz para mim são mais importantes que propriamente a parte informativa da imagem. Está aí retratada a Ásia daquela época.

– Mas já viajava antes, com a sua mulher. Qual foi a primeira grande viagem?

A.C.G. – Durou dois anos e foi de Barcelos, a nossa terra, até Macau, continuamente por terra, com um veículo próprio. Fomo-nos perdendo pelo caminho, acabámos por ficar no Paquistão, não conseguimos entrar na China. Essa foi a primeira, depois houve uma série de pequenas viagens nesses anos em Macau. Mais tarde, veio a grande viagem já com as crianças, com quatro e seis anos, no ano 2000, quando saímos directamente pela China, porque era um dos nossos sonhos conseguir conduzir um carro na China. E foi isso que fizemos, fomos de Macau até ao Laos, depois à Tailândia, fizemos de seguida a Europa. Trocámos para um camião de nove toneladas, passámos para as Américas e  fizemos mais dois anos de viagem no Canadá.

– Sempre tirando fotografias?

A.C.G. – A minha profissão e da Sofia, como fotógrafo e jornalista, é isso mesmo. Eu nunca tive férias na vida, esse é o meu problema, quanto mais viajo mais trabalho.

– E foi depois, então, que surgiu o “Brasil pelo buraco de uma agulha”?

A.C.G. – Quando chegámos ao Brasil, os brasileiros, que são muito generosos, resolveram oferecer-nos um camião, não de nove toneladas, mas de 17. Uma marca de camiões convidou-nos a fazer um projecto. Na altura, em 2006, disse ‘vamos fazer uma máquina fotográfica com o camião’. Eles ficaram a pensar que era um estúdio de fotografia, uma sala de aulas. Eu disse ‘Não, não, não. Vai ser mesmo uma máquina, as pessoas vão andar dentro da máquina fotográfica’. Eles acharam piada à ideia e daí começámos. Era mais uma provocação que outra coisa mas acabou por virar um projecto sério e fizemos todo o Brasil, 27 estados, e o projecto durou quase quatro anos.

– Como funciona, em concreto, essa captação da imagem com a pinhole?

A.C.G. – O sistema pinhole demora muito tempo porque o buraco tem de ser muito pequeno, na ordem dos milímetros, para poder formar uma imagem nítida. Isso pressupõe horas de exposição, pode ir de uma a quatro ou cinco horas. Com uma exposição assim longa é impossível fotografar pessoas, não fica nada. A segunda foto que fiz foi em Brasília, numa ponte onde passam milhares de carros. Fizemos uma exposição de seis horas. Não aparece absolutamente nada em cima da ponte porque tudo o que mexe desaparece. Na fotografia só ficam imóveis. Por isso, o que é que temos nas fotografias? Um Brasil deserto. É exactamente o oposto que se vai ver aqui, em Macau, na galeria, porque só fotografo pessoas olhando para a minha câmara, olhando para mim. Essa interacção directa, olho no olho, não existe com esse camião. Em contrapartida, o camião tem sete metros e passaram uns 60 mil brasileiros por dentro da máquina fotográfica. Consegui comer as pessoas, antes captava-as, agora consegui engoli-las nas tripas da máquina fotográfica.

– O que ficou nessas fotografias? Mais paisagem urbana ou rural?

A.C.G. – Depende do estado. Em cada um procurei algo que o simbolizasse. O Pantanal, por exemplo, é um lugar alagadiço perto da Bolívia – o Brasil está inclinado ao contrário, o território tem uma elevação junto à costa atlântica que empurra a água contra os Andes. Esse território, como é alagadiço, tem umas árvores estranhas, diferentes, que metade do ano estão meio debaixo de água. Por isso, [o que fotografámos] aí foi uma árvore. Em Manaus foi a ópera, por estar no meio da selva, naquela época. Em Brasília, como é uma cidade muito moderna, fotografámos uma ponte muito interessante. E vai por aí fora. Para cada um escolhi um motivo, 27 ao todo.

– Qual é a dimensão dessas fotografias?

A.C.G. – 4,20 metros por 1,27 metros, que é a largura do papel.

– De onde vem esse seu interesse pela fotografia em larga escala? É uma questão de impacto? De perspectiva?

A.C.G. – Acho que é uma questão de infância. Vivi numa casa centenária, com 120 anos, num quarto com portadas de madeira que tinham umas frestas por onde passava luz. A parede ao lado da minha cama tinha imagens, coisas que se mexiam e que um dia descobri que eram imagem, que as árvores se projectavam na minha parede. Só agora, depois de ter iniciado o projecto, é que andei à procura da razão porque queria ter um lugar onde se projectasse uma imagem e as pessoas pudessem estar lá dentro. É da minha experiência de infância.

– Como vê o trabalho do artista francês JR, que coloca fotos enormes de caras de pessoas em locais violentos do mundo?

A.C.G. – Acho o trabalho dele maravilhoso. Toca não só as populações locais como o mundo inteiro. Ele fez um no Rio de Janeiro com as favelas que foi muito interessante, com os olhos das pessoas. É muito interessante, está entre o graffitti e a fotografia.

– Acha que as imagens com um tamanho tão grande têm a capacidade de ter um impacto maior nas pessoas?

A.C.G. – Acho. A questão do tamanho da imagem é menos importante que outra muito interessante: a arte tal como a gente a vê, de protegidos, de aristocratas que expõem os seus trabalhos em salões e galerias, vai acabar, não faz sentido numa sociedade igualitária (Por um lado, essa protecção ao artista e, por outro, essa compra de obras para colocar na parede). Todos nós somos artistas a partir de um determinado ponto e todos nós fazemos as nossas próprias imagens. Com o instagram, por exemplo, toda a gente faz imagens maravilhosas dos filhos, da casa, do dia-a-dia, não precisa decorar as paredes de casa com [trabalhos] de um artista profissional. Acho que essa democratização da arte vai fazer com que apenas aqueles que intervêm nas ruas sejam artistas profissionais. Acho que esse é o futuro da arte. O meu interesse são as pessoas, é o mundo. A parte estética é o meu tratamento dessa realidade. Mas esse tratamento é muito menos importante do que o contacto directo com as pessoas e o descobrir dos outros.

– Uma vez fez enormes painéis com pão, numa feira de panificação, no Brasil. Qual foi a intenção?

A.C.G. – O meu objectivo é que passem pelo menos 500 pessoas por dia dentro da minha máquina fotográfica, se isso acontecer já fico contente. Faço demonstrações para as crianças e é muito engraçado. Fico às escuras durante um minuto com as pessoas, vou explicando aspectos ópticos da fotografia.  Estamos todos virados para o lado onde vai aparecer a imagem. Entretanto os olhos das pessoas ficam habituados ao escuro e de repente tiro a tampa do buraquinho e aparece a imagem. Quase sempre as pessoas olham e fazem “Ah!”, há um grito, principalmente das crianças, que não se imaginavam dentro da máquina fotográfica. Eu explico antes “imaginem que estão dentro de uma máquina fotográfica, que estão dentro de um olho humano”, mas só quando vêem a imagem é que percebem do que estou a falar. Participámos num monte de feiras. Nessa do pão aliámos uma outra coisa que é a impressão, não só realizámos as imagens mas imprimimo-las na mesma escala em que elas se projectaram dentro da máquina fotográfica. Essa perda de escala dos objectos, seja para menor ou para maior, é que faz as pessoas reflectirem sobre esse objecto. Tal como no trabalho do JR, partir para outra escala faz as pessoas tomarem consciência da realidade.

– Menciona a importância de promover a língua portuguesa. De que forma é que o seu trabalho contribui para isso?

A.C.G. – Optámos por viver aquela [frase] simbólica “A minha pátria é a língua portuguesa”. Na verdade, eu estava cansado de ouvir falar disso, da língua portuguesa pelo mundo. O meu conceito de Portugal é de uma terra de fugitivos de uma Europa sempre em guerra, sempre em grandes convulsões. Quem fugia para Oeste batia de frente com o oceano Atlântico. Essa incapacidade de ir mais longe fez com que em 1500 plantassem lá uns pinheiros e fizessem uns barcos e saíssem pelo mar fora – o movimento já era anterior, já vinha de cima do centro da Europa. Na minha própria família tenho loiros de cabelo branco, de um lado parecemos todos russos, e do outro parecemos todos ciganos. Essa mistela que é Portugal expandiu-se pelo mundo fora. E eu estava farto de ouvir falar daqueles que não partiram. Tinha um amigo brasileiro que dizia uma coisa muito engraçada. “Sabe o que é um português?” – e eu estava à espera de uma piada qualquer de portugueses, mas ele disse uma coisa muito interessante: “É um brasileiro que não teve coragem de partir”. Essa definição é muito engraçada. Quem é que ficava em Portugal com um império daqueles? Eu queria sentir esse frisson que os navegadores sentiam em 1500 e 1600. Fui à procura dessa língua, dessa civilização espalhada pelo mundo.

– Mas passou por muitos sítios onde não se falava português.

A.C.G. – Há sempre uma ligação com o português. No resto da América do Sul, há Sacramento, no Uruguai, por exemplo. Há sempre um lugar onde estamos ligados, se não for pela língua, é por um português que fez alguma coisa extraordinária lá, começou sozinho qualquer coisa. Não é porque ache que os portugueses são mais dignos da minha atenção do que os outros, mas é uma escolha, quando se viaja tem de se ter um foco e o nosso foco é essa ligação.

– Já foi a mais de 70 países. De onde vem esse bichinho das viagens?

A.C.G. – Há essa explicação histórica. Todos nós sonhámos com Calecute, com Cochim, com esses nomes da nossa história. Na minha infância, na escola primária, tinha de saber o nome dos rios e dos caminhos-de-ferro de Angola e Moçambique. Fomos educados num país multicultural, pluri-continental – os manuais salazarentos diziam isso. Essa é a primeira grande influência. A segunda é que o meu bisavô morou a vida toda no Rio de Janeiro. A minha casa é uma casa de brasileiros. Eu falava com as pessoas e agarrava-lhes nas mãos, abraçava de mais, fazia tudo de mais em relação a uma terra do norte de Portugal, onde pertencia. Na verdade, o meu espaço infantil foi um espaço do Brasil. Quando voltei agora a casa dos meus avós vi as imagens de Nossa Senhora da Aparecida, de um monte de coisas que são brasileiras. Alguma coisa me impelia na família. Tenho a família mais típica do norte de Portugal: bisavó brasileira, pai emigrado em França. Só podia fazer o que fiz.

– Acha, então, que todo o português é um viajante nato?

A.C.G. – É a única coisa que nos destaca. Um país grande como Inglaterra pode-se orgulhar de várias coisas, como da revolução industrial, dos movimentos sociais, da música dos anos 1960, têm um leque de escolha muito grande. Nós só temos a expansão marítima – e agora temos uns arquitectos e uns escritores que ganham uns prémios. A nossa escolha para nos orgulharmos de alguma coisa, até chegar o Siza Vieira e o Saramago, era pouca. Só tínhamos a expansão marítima. Já estava enojado de ouvir falar disso. O Rui Veloso dizia “Sou um Cavaleiro Andante”, toda a gente é cavaleiro andante mas anda toda a gente enfiada naqueles costumes mesquinhos de um país pequeno, com a Espanha toda à volta. Na verdade, somos um país super isolado. É como se nos tivessem enfiado numa caixa, a sonhar com uma paisagem tropical no norte da Europa.

– Há um certo contra-senso, um país de viajantes tão isolado.

A.C.G. – As pessoas aqui no Brasil dizem muito “Ah, você é o português típico, viaja pelo mundo com a família, com os filhos, vocês são uns Vascos da Gama, uns Cabrais” . Na verdade, são muito poucos os que viajam actualmente. Não é uma tradição. Os holandeses continuam a ter os barcos, a ganhar regatas internacionais, eles foram tão viajantes como nós no século XVI e XVII. Nós não temos essa  tradição marítima, temos uns pescadores que morrem em três dias de pesca, vira-se o barco tecnicamente mal preparado. Perdemos os cidadãos que faziam isso, estão no Brasil, ficaram por Angola, estão no Canadá, nos Estados Unidos, os baleeiros dos Açores que estão no sul do Brasil. Somos sangrados de viajantes, não temos mais viajantes no século XX.

– Viajou muito enquanto esteve em Macau. Como é conciliava isso com o seu trabalho?

A.C.G. – Bom, chegámos a Macau, fizemos as nossas carreiras, e Macau era um lugar suficientemente exótico para nos sentirmos em viagem. Durante todo o tempo em que estivemos aqui, mesmo com as crianças, nunca parámos de viajar, muitas vezes durante nove meses do ano, outras vezes seis, outras três. Perdi várias vezes o emprego porque ia para o Tibete e não conseguia voltar, ficava lá três, quatro meses. Um dia voltei com quatro meses de atraso para começar o ano lectivo e fui para Coloane, onde morava, fiquei lá quietinho, não disse nada a ninguém, pensei ‘bom, perdi o emprego, nem tenho cara para enfrentar as pessoas’. Mas o director da escola, o Nuno Barreto, soube que eu estava de volta – sabe como é, Macau é muito pequeno – ligou-me e disse “Mica, tens de vir trabalhar”, “mas já passaram três meses”, “não faz mal, já arranjei um esquema para te reintegrar, vais dizer que estiveste doente, uma doença de pulmões, não conseguiste sair de lá”. O reflexo dessas viagens todas é o que vai estar nas paredes [do Museu de Macau].

– Viaja com a sua mulher e dois filhos. Como é que isso funciona em termos práticos?

A.C.G. – Com a Sofia grávida, fizemos o Pacífico, o Elói quase nasceu lá. Quando ele tinha um mês estivemos no Bornéu. Estivemos em locais bem recônditos, perdemo-nos no meio da selva, nunca parámos de viajar com as crianças. Mas só começámos a viajar de forma contínua – e foram assim os últimos 12 anos – a partir do ano 2000, quando eles tinham quatro e seis anos. Porque aí eles já tinham mobilidade, já podiam carregar as suas mochilas, caminhar. Apetrechámos um veículo com tudo preparado para eles – as crianças também precisam de ter os seus brinquedos, tal como eu levava as minhas máquinas fotográficas. Fizemos a primeira tirada da Ásia com um jipe, um veículo de tamanho reduzido.

– Como era em relação à escola das crianças?

A.C.G. – Estou de acordo com o Agostinho da Silva que dizia que as crianças só deviam aprender a ler aos 13 anos. Porque há muita coisa que perdemos, o gesto da escrita é um gesto curto e controlado e interfere com o desenho, por exemplo. Nós antecipamos demais as capacidades formais das crianças. Nunca me preocupei muito [com isso]. Quando a minha mãe perguntava “E os teus filhos, como é que vai ser?”, eu respondia: “Começam a ficar em falta os analfabetos, já não há, estão em extinção. Vais ter uns netos analfabetos para se manter qualquer coisa tradicional”. Era brincadeira, na verdade as crianças aprendem sozinhas, eles aprenderam praticamente a ler e a escrever sozinhos. A  escola mais formal foi num camião que comprámos na Alemanha, que já tinha um quarto para eles, um para nós, uma sala. Tinha muito espaço para guardar toda a parafernália, nossa e deles. Eu fazia a parte prática de lhes mostrar a realidade, íamos ver fábricas – mais fábricas que museus.  A Sofia encarregava-se da parte mais formal, da Matemática, da língua. Isso durou de 2002 a 2006, quatro anos entre a Europa e a América. Demos-lhes a educação formal com os manuais portugueses.

– Mas antes de virem para Macau estavam baseados no Brasil, certo?

A.C.G. – A nossa vinda a Macau marca o fim da continuidade no Brasil. Durante os cinco, seis anos, que estivemos no Brasil, eles estiveram a acabar o secundário.

– Já decidiram para onde vão?

A.C.G. –  O meu filho tem 17 anos e vai estudar cinema ou em Portugal ou em Hong Kong. Agora é a fase mais interessante das nossas vidas. Tivemos de nos organizar no Brasil, ter uma estrutura fixa, e a partir de agora acabou-se de novo. Deitámos o lixo todo fora, o nosso lastro, e vamos agora tentar direccionar os próximos anos.

– É em Macau que vão decidir?

A.C.G. – Sim. Ou Europa ou Ásia. Se for Ásia queremos sedear-nos em Macau mas ter muita relação com a China e com Hong Kong. Os 13 anos de Macau deram-nos um grande conhecimento da região e desta vez não quero ficar tão ligado exclusivamente a Macau, quero principalmente alargar o horizonte para Hong Kong. Em Maio já tenho lá uma actividade programada com fotografia.

 

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