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A enorme máquina do mundo

Um rapazinho de ofuscantes olhos azuis desliza pelo interior de enormes máquinas de relógios. Rodas dentadas encaixam-se umas nas outras no infinito encadear do tempo. E é ele, Hugo, que garante que os ponteiros estão afinados ao segundo naquela estação de comboios de Paris, onde a hora dita a regra de todos os que por ali se movem.

Hugo é como o Quasímodo que toca os sinos em Notre Dame: a estação é a sua casa e o acertar das máquinas a sua função, mas ninguém sabe da sua existência. “Hugo”, que além do nome da personagem principal é também o nome do filme – inspirado no romance “The Invention of Hugo Cabret” –, dá muito ares de Disney e bastantes de Spielberg, mas é na verdade obra de Scorsese.

O melhor do filme, arriscamos dizer, são as cenas na estação de comboios, sempre apinhada de gente. Há pequenas histórias de amor que o rapazinho observa por entre os ponteiros dos relógios que afina: o guarda que suspira pela menina que vende flores, e o velhote que vende jornais e que namora à distância a dona da padaria, sempre com um ciumento cãozinho ao colo que não deixa ninguém aproximar-se. Para a maioria, a estação é um local de passagem, uma via para chegar a outro lado; mas há também aqueles que fazem daquele lugar um hábito diário. São estas vidas corriqueiras que Hugo, órfão solitário que vive na sombra da clandestinidade, vê sem nunca ser visto.

Neste filme, o grande vilão é o inspector da estação, um homem que dedica a vida a perseguir infractores, na maioria órfãos, que por ali passam cometendo pequenos furtos que lhes permitem sobreviver. O inspector é, no entanto, interpretado por Sacha Baron Cohen, e isso chega para se perceber que é tudo menos aterrorizador. É um homem abotoado até ao pescoço, com um sorriso impróprio e com uma perna que chia, consequência de uma passagem pela guerra.

Hugo tem uma missão secreta: encontrar peças que permitam reparar um autómato, um robozinho metálico capaz de escrever, que lhe foi deixado pelo seu pai (Jude Law) antes de este morrer num incêndio. O mecanismo é extremamente complexo e está dependente de uma chave desaparecida, em forma de coração. Este pequeno pormenor é extremamente simbólico e representativo do filme: as máquinas, como sabemos, não têm coração, mas em “Hugo” elas são bem mais do que peças que encaixam, rodam e clicam, elas são fonte de vida.

Todo o filme gira em torno do esforço incessante para fazer as coisas funcionarem. Elas simbolizam a finalidade da existência – a comprová-lo, o próprio Hugo diz: “Sempre acreditei que o mundo era uma enorme máquina. Todos fomos feitos com um objectivo. Acho que é por isso que fico sempre triste quando as máquinas se avariam, é como se perdessem o propósito. É por isso que estou sempre a tentar arranjá-las”.

Para consertar o pequeno boneco, Hugo rouba peças de uma loja de brinquedos. O crime, no entanto, não compensa, e o jovem é apanhado pelo dono de loja, um velhote rabugento e de olhar severo.

A partir daí o filme vira-se ao contrário e revela o seu verdadeiro propósito: homenagear o cinema de George Méliès. Como? Bom, aí é que está o mistério e não seria bonito da nossa parte revelá-lo. Mas tudo se liga harmoniosamente pela chave em coração.

Méliès está vivo, bem vivo, mas vive dormente, atormentado pelos fantasmas do passado. O sucesso estrondoso dos seus filmes surrealistas – e absolutamente revolucionários para a altura, sendo o mais famoso de todos “A Trip to the Moon” – foi abafado pelo explodir da guerra. Frustrado por assistir, impotente, ao fim do sonho, o cineasta queima os gigantes adereços que fizeram as delícias de milhares de espectadores e derrete as películas, num gesto dramático que ditaria o seu lugar na história do cinema.

É Hugo, o rapazinho enfarruscado e solitário da estação, que salva Méliès, num twist fantasioso e adocicado.

Esta homenagem ao cineasta não será, talvez, aquilo que de mais singular há em “Hugo”, mas nós, os amantes do cinema, apreciamos, ainda assim, os deliciosos momentos em que podemos lembrar os mundos fantásticos do “pai dos efeitos especiais”. Porque se há imagens que valem mais que mil palavras – naquela época de cinema mudo –, há uma que valerá por vários milhares: a do foguetão que embate, sem apelo nem agravo, contra o olho esquerdo da lua.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Hugo

Martin Scorsese, 2011

 

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