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O cosmo Grimes

No mundo a que todos chamam de normal, deparamo-nos diariamente com casos de corrupção, injustiças e um sem número de atrocidades. Por vezes, pergunto-me: e se vivêssemos sob a égide de robots programados para o bem comum?

Talvez a pensar nisto, mas de olhos postos na salvação da indústria da música, uma jovem de 23 anos de Vancouver criou um cosmo musical povoado de criaturas meio robóticas e falsetes. No B.I. dá pelo nome de Claire Boucher. Mas para a história quer ficar conhecida como Grimes.

De ideias loucas – com um antigo namorado construiu um barco-casa para descer o rio Mississippi –, a moça é produto de uma geração de músicos que trata a tecnologia aliada ao som por tu. E ainda bem porque não fosse o desenvolvimento técnico alavancado pela internet, muitos dos projectos da última década que consideramos inovadores não tinham visto a luz do dia. “Visions”, editado na última terça-feira, é dessa estirpe.

Não vamos mentir: a música de Grimes pode não ser fácil à primeira audição. Mas como, hoje em dia, tudo é ou parece ser fácil, nada melhor do que embarcar numa viagem que persegue os trilhos de uma pop obscura, envolta numa sonoridade electrónica.

Um dos melhores cartões de visita é a espacial “Genesis”. Nas teclas, Grimes esmera-se. E a sua voz… A sua voz é um doce, improvável na imagem de miúda rebelde que não encarna, note-se. É que Grimes é mesmo assim.

Nas restantes 12 músicas, às quais se acrescentam mais quatro faixas-bónus, há uma imensidão de sons que dão lugar a muito experimentalismo. Ouça-se “Visiting Statue”, uma manta de retalhos que, a cada segundo, ganha forma de verdadeira obra de arte. O mesmo se pode dizer de “Be a Body” em que Grimes embala-nos com a sua voz penetrante, saída de outro planeta. Aliás, quem se perder por aqui arrisca-se a dar por si no meio de um cenário de quase ficção científica.

“10 Symphonia IX (My Wait is U)” prossegue a toada atrás descrita e não desilude, sempre com um toque meio épico. Este, talvez, seja consequência dos estudos da artista, que é também dada à vídeo-arte, em música medieval.

Tudo isto faz de Grimes um ser único, no que diz respeito à criação. Se dúvidas restam, então botamos “play” na tocante “Skin”. São seis minutos que começam com a canadiana a declarar: “Soft skin/ You touch me with it and so I know I can be human once again.”

Para o final de “Visions”, que sucede a “Geidi Primes” e “Halfaxa” (ambos de 2010), ainda nos surpreendemos com “Know the Way” que foge ao experimentalismo do restante disco. A fechar, “Angel” – que tem cerca de um minuto e 20 segundos – confirma que o terceiro disco de Grimes tem tudo para ser um dos melhores do ano.

Visions, 2012

Grimes

 

Pedro Galinha

 

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