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“A atracção pela China nem sempre correspondia a um conhecimento aprofundado”

De certa maneira, a história do maoismo em Portugal era, até à publicação de “Margem de Certa Maneira”, do historiador Miguel Cardina, uma narrativa mal contada, feita de equívocos, omissões e clichês.

Carlos Picassinos

Um exemplo de lugares-comuns? O maoismo era mais uma galáxia de grupúsculos do que uma organização de meninos rabinos que pintam paredes, como o MRPP era correntemente conhecido. E a sua oposição ao regime salazarista mais eficaz e disruptora do que o mero activismo universitário. Foi não só capaz de mobilizar novos territórios, como de introduzir um activismo anticolonial que, em boa medida, escapava à estratégia do PC. “Margem de Certa Maneira” devolve visibilidade a este universo ideológico embora, como reconhece Miguel Cardina nesta entrevista, existam ainda investigações parcelares a desenvolver. O caso das ligações destes movimentos à República Popular e o lugar de Macau nesta história é uma delas. “Noto, curiosamente, o silêncio das publicações maoistas da época ou mais ou menos afectas a esse campo político sobre os acontecimentos em Macau em torno do ‘1, 2, 3’.”, afirma. Para concluir que, apesar do furor ideológico, o conhecimento sobre o que passava no terreno era difuso.

– Este é um trabalho que pretende fazer uma identificação total do fenómeno do maoismo em Portugal com o pano de fundo dos acontecimentos históricos do pós-guerra até ao 25 de Abril. Se assim é (é?), como é que genericamente se deu a recepção desse pensamento maoista em Portugal?

Miguel Cardina – O chamado ‘maoismo ocidental’ é um fenómeno típico dos anos 60 e da primeira metade dos anos 70. Veio a adquirir características semelhantes um pouco por todo o mundo, até porque os grandes marcos dessa recepção se situaram em dois elementos comuns: numa primeira fase, o conflito sino-soviético; numa segunda fase, a Revolução Cultural e o impacto de um imaginário que associava essa experiência a uma espécie de questionamento permanente das estruturas de poder. Isso deu origem a duas ‘recepções’ diferentes: a primeira, mais ligada à matriz clássica do marxismo-leninismo; a segunda, mais próxima de uma matriz anarquizante que cruzava facilmente com a ambiência soixant-huitard. Em termos organizacionais, e olhando para o caso português, a FAP (Frente de Acção Popular) e o CMLP (Comité Marxista-Leninista Português) correspondem ao primeiro momento; organizações como o MRPP ou a OCMLP correspondem ao segundo momento. Isto não significa que este segundo momento tenha sido libertário; mas essa influência não deixa de existir, sobretudo num momento inicial da constituição dos colectivos, provocando uma tensão entre este carácter ‘espontaneísta’ e o veio mais ‘burocrático’, mais ‘leninista’. E aqui, o que vale para os colectivos vale também para os indivíduos: no âmbito das mesmas organizações ou no corpo dos mesmos sujeitos, o imaginário de rebelião como festa debateu-se muitas vezes com o puritanismo; a busca de linguagens estéticas fora do neo-realismo conviveu com o entendimento da arte como elemento imediato da luta de classes; a defesa de práticas mais informais e participadas de decisão política chocou com o dirigismo e o controlo organizativo.

– Era, de alguma maneira, uma história silenciada?

M.C. – Não diria silenciada, até porque frequentemente se ouvem ou lêem referências a esse passado, sobretudo acompanhando a evocação da juventude activista de alguns políticos influentes. Mas desconhecida, ou mal conhecida, sem dúvida. Persistem ainda muitos erros quando se fala desse passado. É comum associarem-se pessoas a grupos a que não pertenceram ou caricaturarem-se determinadas práticas.

– Considera que este seu trabalho inscreve o maoismo, genericamente falando, entre os grandes actores colectivos de combate ao regime salazarista, quando antes este combate aparecia sob hegemonia do PC ou de intelectuais socialistas exilados, ou outros? Ou seja, esta sistematização significa recuperar um universo secundarizado e, até mesmo, banalizado pelos clichés da historiografia e do senso comum (‘Meninos Rabinos Pintam Paredes’)?

M.C. – De certa maneira, procurei trazer para a visibilidade um campo da oposição frequentemente esquecido ou evocado através de clichés. A expressão ‘Meninos Rabinos que Pintam Paredes’ é um exemplo disso. Em primeiro lugar, confunde o activismo ‘marxista-leninista’ ou maoista da época com o MRPP, quando ele foi bem mais vasto do que essa referência singular permite perceber. Por outro lado, tenta-se afunilar esse activismo eminentemente nas universidades e num tipo de intervenção que seria relativamente inócua – quando não foi inócua nem exclusivamente concentrada nas universidades. Vários desses grupos tentaram – e em alguns casos, conseguiram – penetrar em territórios operários e aí desenvolver um diferente e mais arrojado tipo de activismo. No fundo, essa é uma expressão típica do pós-25 de Abril mas que hoje é usada para caracterizar o pré-25 de Abril, o que acaba por provocar algumas distorções e lugares-comuns que nem sempre fazem jus à realidade.

– É possível fazer uma tipificação das práticas e dos sujeitos maoistas por demarcação das restantes práticas de resistência à ditadura. Como é que operava essa resistência?

M.C. – A verdade é que o campo maoista ou, em termos genéricos, a extrema-esquerda da época – na qual o maoista, no seu conjunto, era a componente mais expressiva – introduziram algumas novidades no tipo de oposição ao regime. Sendo uma oposição eminentemente juvenil, colocar forte acento tónico no activismo anticolonial, apelando à deserção e desenvolvendo acções tendentes a isso, a contracorrente daquilo que era a posição definida pelo PCP para os seus militantes. Este activismo de extrema-esquerda foi importante no engrossar da contestação à guerra colonial e ao regime. Por outro lado, a extrema-esquerda maoista contribuiu de modo significativo para que a partir de 1969 se abrisse um novo período crítico, nas universidades e não só, em que a luta anticolonial e a luta anticapitalista ganham visibilidade. E isso era um processo político mas também cultural: renovavam-se as bandeiras de luta mas também as sociabilidades, as leituras, os gostos musicais.

– No decurso das suas investigações conseguiu identificar alguns contactos directos entre grupos ou indivíduos com a cúpula dirigente da RPC, ou mesmo antes de 1942, com os dirigentes da facção maoista chinesa? Encontrou alguma ligação a Macau, ou qualquer referência, ao território, pela contiguidade geográfica com a China? Ou qualquer ligação entre os maoistas portugueses na Europa e eventuais contactos em Macau, durante a crise que se deu ali durante 1966/67 por efeito da Revolução Cultural? Ou mesmo outros contactos com movimentos maoistas nas colónias africanas (nas outras imagino que não sejam conhecidos movimentos dessa natureza)?

M.C. – São processos que não tive oportunidade de investigar com profundidade. O que sei deriva de outros trabalhos já publicados ou de informação secundária que me foi chegando. Sobre ambos os aspectos, faria sentido desenvolver trabalhos parcelares. Noto, curiosamente, o silêncio das publicações maoistas da época ou mais ou menos afectas a esse campo político sobre os acontecimentos em Macau em torno do ‘1, 2, 3’. O que não deixa de revelar um elemento importante desta galáxia: a atracção pela China e pelos processos políticos que lhe estavam associados nem sempre correspondia a um conhecimento e acompanhamento aprofundado do que ia acontecendo.

– Mas significa isto que na altura o que se passava com a Revolução Cultural também não era completamente conhecido?

M.C. – Não é fácil definir com precisão o que se sabia ou não. Até porque há diversas fontes de construção do conhecimento: livros, discussões, material da imprensa clandestina, informações que o regime permitia na comunicação social… Entre a juventude radicalizada circulavam, por exemplo, livros de intelectuais que foram à China e tinham um olhar muito positivo sobre as transformações que aí ocorriam: Alberto Moravia, Maria Antonietta Macchiocchi ou Charles Bettelheim. E, para além das elucubrações de índole teórica e ideológica a que a documentação clandestina destas organizações dedicava atenção, apareciam também em certas revistas da oposição relatos sobre o modo de vida nas aldeias chinesas, contos exemplares ou notícias que espelhavam uma outra relação entre homem e natureza, nomeadamente como eco do ‘grande salto em frente’. O Comércio do Funchal e sobretudo O Tempo e o Modo – uma revista que a partir de 1970-71 é hegemonizada por jovens maoistas – tem alguns artigos deste género. Não encontrei muitos textos em que se detalhasse o processo da Revolução Cultural para além da ideia de que se promovia ali um movimento amplamente participado de questionamento das hierarquias e de activação de uma outra relação entre teoria e prática. Por outro lado, é preciso notar que a violência não é vista por este campo político como um mal absoluto mas antes, para lembrar a frase de Engels, como a ‘parteira da história’. Isso não significa que se fizesse a apologia das orgias de sangue ou da implementação de um estado de guerra de ‘todos contra todos’. Mas significa que o conhecimento, parcelar e distante, de actos de violência levados a cabo por guardas vermelhos era enquadrado nesta ideia de que qualquer movimento profundo de renovação do tecido social continha em si, obrigatoriamente, alguns gestos impositivos.

– De que modo é que o facto de muitas figuras políticas portuguesas terem origens maoistas determina a prática política actual ou o modo de articular o pensamento na esfera pública? Que herança deixou aquele momento ideológico?

M.C. – Encontramos hoje antigos maoistas em todos os quadrantes políticos. Heduíno Vilar, o antigo líder do PCP, é hoje um homem da direita católica ultraconservadora. Temos gente que pertence ao PSD, como José Pacheco Pereira ou Durão Barroso, e independente do Governo de direita actual, como Nuno Crato. Temos vários ex-maoistas no PS, como é o caso de Ana Gomes, José Lamego ou Pedro Baptista, que recentemente saiu para fundar um partido regionalista do Norte. Temos vários militantes do Bloco de Esquerda, desde gente que vem da UDP até outros que, situando-se à esquerda, encontraram nesse grupo o espaço de actualização do seu ideário político. E até é possível encontrar ex-maoistas no PCP, como é o caso de Frederico de Carvalho. Outros consideram-se de extrema-esquerda, ainda que possam ter um olhar crítico sobre o passado, ou não têm militância partidária mas envolveram-se de diferente forma na academia ou em variadas formas de associativismo. Tenho dificuldade em encontrar uma matriz política comum a todo esse complexo activista. Geracional, é possível.

 

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