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A meia laranja

Acho mal que se roa uma laranja, aqui e em qualquer falésia. Descascando-a, pele branca e cheiro retidos sob as unhas, cascas sobre o colo, descobrem-se dos veios que amargam os gomos que ficam, e estes, desdobrando-se múltiplos em incontáveis pequenas bolsas independentes, guardam o sumo, que mais à frente os dentes libertam. É um trabalho de paciência descascar uma laranja, feito para consumir o tempo e a atenção de quem a pela. Não se rói assim ao acaso uma laranja ao mesmo tempo que se fixam os olhos no horizonte.

Há outras particularidades do fruto. Dá-se o caso de, com alguma maravilha que frequentemente descuidamos de notar, a laranja ser – talvez e com muita perícia do descascador – infinitamente, ou quase (sem exageros!) divisível, sem perder a sua integridade.

Ora, por razões que são por alguns apontadas sem jamais – note-se – terem sido confirmadas, aqui, a laranja ficou meia. Separada numa semi-esfera imperfeita, ficou inteira sem ser vazada, e nela permaneceram, sob uma finíssima pele, alguns molhes de pedras que parecem despontar do espelho aquoso e permanentemente estático. Seguramente, pedras.

Há quem porém conte por aí que uma delas foi – não se sabe se ainda é – muito mais certamente um sapo, à laia de criatura mítica arrancada às profundezas da água escura que um dia, e de um só trago, roubou esta hoje meia laranja da sua outra cara metade. Porventura, insinua-se, a refeição sôfrega não trouxe ao animal saciedade.

Por isso, diz-se ainda às crianças que o sapo comia também homens inteiros como laranjas, sem jamais os beliscar. Rápido, como os sapos são quando é hora de tragar, nunca ninguém o viu. Os homens foram desaparecendo e ficaram somente as suspeitas pairando sobre as águas, sem que o medo se instalasse totalmente e, com ele, as devidas previdências.

Incautos, há uns que se passeiam pelas bordas do lago e trepam os muros, perscrutando o espelho denso sem nada a avistar. A meia laranja revela apenas quem a vê, entrecortado pelas pedras que despontam. Há um intrigante borbulhar que intermitentemente assoma à superfície, e que serve apenas para provar que há matéria líquida – e para adensar as suspeitas.

Aqui é tudo feito de alguma espessura. A atmosfera leitosa encosta-se à superfície do lago, negro como pasta combustível, presa nas minúsculas vesículas da meia laranja. Vê-se tudo à volta fosco e, sem ponta de resolução, partimos com a condensação no vidro dos olhos. Ouve-se coaxar.

Maria Caetano

 

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