Uncategorized

Detective de horas vagas

Costumava achar que há dois tipos de humor: o estúpido e fácil e o sofisticado e inteligente. A distinção nunca foi difícil de fazer e, gosto de acreditar, sempre me inclinei para o segundo tipo. Até ao dia em que me deparei com “Bored to Death”.

É abusivo dizer que esta comédia nova-iorquina prima pela perspicácia. Sejamos sinceros, “Bored to Death”, agora no final da terceira temporada, é uma série parva. Mas de uma parvoíce que merece aplauso, por proporcionar ao espectador as mais autênticas e despretensiosas gargalhadas, que ao mesmo tempo não são fruto de piadolas demasiado fáceis ou datadas.

E depois há essa ironia maravilhosa que atravessa todos os episódios, que resulta do facto de as personagens principais serem, elas próprias, snobes que não o conseguem ser, intelectuais broncos, que poucas vezes mantêm a compostura. Ora vejamos: Jonathan Ames (que é também o nome do autor da série), o protagonista, é um escritor que bebe vinho a mais; George Christopher é um abastado mulherengo, editor de uma revista, onde assina uma coluna semanal; e Ray Hueston é artista de banda desenhada e autor do super herói, inspirado em si próprio, Super Ray. Digam lá se isto não transpira pretensiosismo?

Mas a verdade é que basta passar do primeiro episódio para perceber que estamos a falar de três falhados – que abusam do tinto e da erva, que volta e meia se envolvem com mulheres bonitas, mas ainda assim três falhados.

Quando, no início da série, a namorada de Jonathan termina a relação (por achar que ele passa demasiado tempo sob o efeito de substâncias recreativas), o jovem escritor decide que precisa de algo para dar sentido à sua vida. Sim, porque Jonathan e o seu nariz judeu, Jonathan e o seu look à inícios dos anos 1990, é um existencialista dos mais atormentados. Um old-fashion modernista, portanto.

Pois bem, para trazer a chama de volta aos seus dias, o escritor decide dedicar-se a uma actividade definitivamente cool e coloca um anúncio na Internet a oferecer os seus serviços como detective privado. Escusado será dizer que este menino da cidade, filho único (até ver) que nunca partiu um prato, não conta com experiência no mundo do crime nem prima pela descrição.

A esperança de Jonathan é que a sua vida passe a ter aquele toque de emoção dos filmes – ou livros, neste caso. Espera salvar muitas donzelas chorosas, restituir bens perdidos e repor, no fim de contas, a justiça ao mundo.

A demanda segue, episódio após episódio, caso atrás de caso. Cada um mais rocambolesco que outro – tanto Jonathan pode passar dias a tentar recuperar um skate de criança, como pode impedir um assassinato. Depende do acaso e dos belos olhos da jovem em apuros – por quem ele se esforça sempre um bocadinho mais do que quando auxilia senhores barrigudos.

A irmandade dos três amigos é essencial para a sobrevivência do detective. Jonathan mete-se em sucessivas enrascadas e são George e Ray que sempre o salvam. Ou lhe arranjam ainda mais problemas.

“Bored to Death” foi cancelada em Dezembro do ano passado e ficámos sem saber se o nosso detective sem carteira profissional faz as pazes com as origens ou não. É uma pena.

 

Bored to Death

Jonathan Ames, 2009

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s