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Ele, ela, o pai e o cão

Setenta e nove anos é uma idade tão boa como outra qualquer para sair do armário. Terá sido isto que Hal pensou quando decidiu dizer ao filho: “Sou gay”.

“Lembro-me de o meu pai estar a usar uma camisola roxa quando me disse isto, mas na verdade estava a usar um robe”, conta-nos Oliver (Ewan McGregor). Este pormenor, dito assim, revela bem a estranheza que é ouvir tal notícia de um pai idoso e, ao mesmo tempo, até onde pode chegar o amor de um filho.

A novidade é dada seis meses após a mãe de Oliver morrer, ao fim de um casamento de 44 anos. Hal, um irresistível Christopher Plummer, decide que é tempo de assumir o segredo. Não quer ser “um gay na teoria”, mas sim “na prática”. Arranja um namorado bem mais novo, frequenta bares gay e junta-se à comunidade local, vibrando com a entrada em cena de Harvey Milk e todas as agitações políticas de 2003 – altura em que Bush assumia o poder.

“Beginners” é um filme a três tempos. Começa com Oliver a arrumar as últimas coisas da casa do pai, que acabou de morrer. É nesse tempo presente que se desenvolve o romance com a jovem actriz francesa Anna – mas já lá vamos. De casa do seu pai, Oliver traz uma das personagens mais relevantes do filme: Arthur, o cãozinho mais expressivo do planeta. Com saudades de Hal, com quem esteve a vida toda, Arthur não consegue ficar sozinho – logo começa a ganir e ladrar em desespero – e por isso segue Oliver para todo o lado.

O filme alterna sucessivamente entre o presente, entre os quatro anos em que Hal vive como gay assumido, e entre a infância de Oliver, essencialmente passada com a mãe, uma belíssima Mary Page Keller, amarga e engraçada, presa num casamento sem chama.

O romance entre Oliver, cartoonista melancólico, e Anna é central, mas menos interessante que a história de Hal. Ainda assim é notável a cena em que os dois se conhecem. Ele é obrigado a comparecer a uma festa de máscaras e disfarça o estado de espírito envergando uma longa barba, cachimbo e óculos, numa recriação de Freud. Sempre com Arthur ao colo, vai simulando consultas psiquiátricas com as diversas personagens da festa, incluindo com a Bruxa Malvada do Oeste, do Feiticeiro de Oz.

Até que uma jovem que sofre de laringite, e por isso não pode falar, se deita na poltrona e escreve num bloquinho “porque estás numa festa se estás tão triste?”. Começa assim um romance – primeiro mudo, depois sonorizado – que irá pôr à prova a fé (ou falta dela) que Oliver põe nas relações, tão marcada pelo exemplo desapaixonado dos pais.

Mas voltemos a Hal, que merecidamente valeu a Plummer o Óscar de melhor actor secundário. Há algo de injusto na sua felicidade, tendo sido apenas a morte da mulher que permitiu aquele rejuvenescimento interior – e exterior, já que Hal investe num gaurda-roupa e corte de cabelo novos também.

Oliver, que abraça o melhor que pode a nova vida do pai, deixa transparecer um misto de incredibilidade com alguma amargura, pelos danos colaterais daquele segredo, que deixaram a sua mãe refém até à morte, presa num casamento solitário. Isto nunca Oliver diz – e até se percebia se dissesse. Acompanha o pai em tudo o que pode, vai com ele às campanhas pelos direitos homossexuais e recebe em casa grupos de efervescentes apoiantes da causa. Até o namorado de Hal – que assumidamente sai com outras pessoas – Oliver aceita com um sorriso.

Porquê? Porque não é possível negar a um idoso a felicidade a que se negou a vida inteira. Principalmente quando este descobre ser portador de um cancro terminal. “Let’s not rush and tell everybody”, diz Hal ao filho ao receber as notícias. Até ao fim, até a doença o levar à cama, o ex-historiador, mantém a pose e aproveita, em festas e fogos de artifício, tudo aquilo que tem para viver.

De “Beginners” fica-nos uma vontade desmesurada de aproveitar todos os minutos de todos os dias com intensidade e urgência. Os últimos quatro anos da vida de Hal foram os únicos em que realmente viveu – todo o resto foram momentos mornos, uns seguidos aos outros, numa existência de vergonha e insatisfação. E nós, modernos que somos, jamais nos deixaríamos cair num marasmo feito de ‘mais ou menos’. Certo?

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

 

Beginners

Mike Mills, 2010

 

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