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A casa do Sr. Lou

Eram 14h27 e o Sr. Lou Kau não estava em casa. Perguntei-me “porquê?”, já que a hora convidava à sesta e o tempo, lá fora, pedia reclusão.

Talvez por ser homem de negócios, pensei, estivesse em trabalho pela cidade ou mesmo em viagem. E, além destas duas suposições, havia sempre a hipótese de ter ido dar um passeio ao jardim que mandou erigir e que, hoje, é conhecido pelo nome do seu filho, Lou Lim leoc. Estaria também ele fora?

Sem que alguém me detivesse, arrisquei entrar. Para trás, ficava uma enorme porta escancarada e, à minha frente, um sítio que, para lar, parecia ser pouco caloroso. Mesmo assim, ninguém retira beleza à casa do Sr. Lou, erguida com a força da sua riqueza e ao gosto tradicional “xiguan”.

Dizem que foi em 1889 que a encravaram entre o Largo da Sé e o Largo do Senado. Aos homens responsáveis por tal obra não lhes conheço o nome, mas, por isso, não deixam de ser menos relevantes. Sem eles, não teria tido a oportunidade de ali estar, entre paredes de tijolo cinzento que dão forma a dois pisos e pequenos pátios interiores.

A madeira também abunda e, em algumas janelas do piso térreo, há ferro trabalhado para proteger um conjunto de vitrais. Isto fez-me julgar que o Sr. Lou e os seus têm especial cuidado com esta casa. Até porque as decorações dos frisos em relevo que adornam o topo da entrada principal encontram-se igualmente resguardadas por um beiral suspenso que servirá para proteger do mau tempo. A ser assim, por estes dias, certamente dá jeito.

Os minutos passavam e a extensa família Lou continuava ausente da sua habitação simétrica que, vim a descobrir, foi construída no 15º ano da dinastia Qing, era imperador Guangxu.

Julgava eu que tudo, ali, seria 100 por cento oriental, mas enganei-me. O Sr. Lou Kau, nascido Lou Wa Sio, deve ser sujeito instruído e apreciador do bom que, às vezes, também é o melhor. Daí que, na sua casa, encontremos um jogo equilibrado entre influências das culturas chinesa e ocidental. Por toda a parte, desde as finas placas de casca de ostra das janelas aos tectos em madeira perfurada ou ainda nas balaustradas de estilo europeu.

Sem ver vivalma, decidi que era tempo de deixar a casa daquele a que alguns chamam “rei dos casinos”. Sim, o Sr. Lou que outros preferem tratar por filantropo, uma vez que fundou o Hospital Kiang Wu. Mas a sua boa-vontade não ficou por aqui. Há quem diga que conseguiu fazer com que emprestassem umas duas mil patacas ao Dr. Sun Yat-sen para que pudesse abrir a Farmácia Sino-Europeia, ali na Rua das Estalagens, para onde já caminho.

 

Pedro Galinha

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