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O fantasma de Baleizão

“Morrer pela fé era a coisa mais natural do mundo até deixar de o ser. Até chegar a maldita modernidade que resolveu dizer que a vida é o bem mais valioso de todos. Até a vida, e a preservação desta, se transformar no centro de todas as coisas”. É logo ali, na página 25, que a conversa entre o narrador sem nome e Kapus, o autor de uma biografia sobre “o último dos mártires do Ocidente”, nos desvenda o tema do livro: a essência desses seres fantasmagóricos e intemporais que abdicam da vida por uma causa.

“Um mártir é alguém que tem a razão do seu lado e ainda assim fracassa”, diz-lhe Kapus. Mas ele é jovem, jornalista, um tanto prepotente e não acredita nesses disparates. E então, motivado por um desejo egoísta de impressionar o mundo e em especial o seu editor, escreve uma reportagem que discorre, sem dó, piedade ou sensibilidade, sobre a anatomia dos mártires. À mistura, usa como exemplo a história de Catarina Eufémia e remata o texto com um taxativo: “Um bom comunista é um comunista morto”.

Na redacção chovem cartas. Recebem-se, até, algumas ameaças. Rapidamente o narrador percebe que Catarina Eufémia é mais que um nome apagado da história, uma lenda para tolos que acreditam em contos de fada.

Além da avalanche de reacções, outros eventos perturbam a vida do jornalista. O editor, um alcoólico e ferrenho comunista (se bem que frustrado com o rumo do partido), entra em coma. O seu pai, homem de esquerda, expressa-lhe o profundo asco que o artigo , que descreve como “lixo”, lhe causou. E a bela mulher que conhecera em Berlim, quando fez a entrevista a Kapus, aparece em Lisboa.

A vida treme e até o mais arrogante dos homens duvida de si quando isso acontece. É aí, então, que os fantasmas dos mártires lhe começam a ensombrar os dias.

Nunca saberemos ao certo se Kapus – alemão autor da biografia de um homem que se atirou de um prédio com um livro na mão com o fim de “espalhar a palavra” –  era ou não um charlatão. Mas das duas vezes em que ele se encontra com o jornalista, consegue a maior das proezas: instaurar a dúvida.

“O que é confuso são as nossas vidas sem rumo nem sentido, como se os dias, por si próprios, empilhando-se em castelos de cartas, pudessem dar sentido à existência. Ou como se nós, mortais e finitos, fôssemos capazes de dar sentido àquilo que, à partida, não faz sentido absolutamente nenhum, que é o facto de estarmos aqui num minuto e no minuto seguinte, porque o corpo inexplicavelmente nos falha ou porque alguém decide o nosso final, deixarmos de estar, e a nossa morte não significar nada. Isso é que me deixa confuso”, diz-lhe Kapus em Berlim.

Meses hão-de passar e com eles a crescente obsessão por Catarina Eufémia. Quem era? Mártir, ícone do Partido Comunista, símbolo da resistência contra o Estado Novo, representante dos pobres e oprimidos? Para nós que ficámos, terá sido tudo isso. Mas teria ela, jovem de 26 anos de Baleizão, consciência do seu papel? Teria intenção, propósito político? Tudo indica que não. É essa a cruz do mártir: no momento da morte deixa de ser pessoa, passa a ser um panfleto, uma forma, como diz João Tordo,  de “humanizar as ideologias”. É a morte que define o mártir e sem ela de nada ele valeria, mesmo que toda a sua conduta permanecesse exactamente a mesma.

A criação do mito, injusta ou não, tem as vantagens da inevitabilidade. Não é possível criar símbolos sem lhes reduzir a essência. As pessoas precisam de alento, de uma forma humana para idolatrar e lhes servir de incentivo: “A história de Catarina marcou tanto o Sul do País que foi passando para a geração que veio a seguir e para a outra a seguir a essa. Há mulheres que se chamam Catarina por causa dela. (…) é por causa disto que é a memória encarnada da resistência. Não pelo que fez; tanto quanto sabemos, não fez grande coisa senão ser corajosa num tempo em que a coragem era uma virtude exclusiva da pobreza” (p. 166).

Mas de Catarina pouco sobrou para a família, nem uma frase no túmulo para lembrar. “Sentia [o viúvo] que os outros se tinham apoderado da mulher dele. Nunca me dizia quem, nunca me dizia porquê: só dizia que a tinham levado, que tinham feito com ela o que queriam e que para si, para ele e para os filhos, não tinha sobrado nada” (p. 202). Tudo isto lhe contam os livros, os documentos e as pessoas que o narrador usa para juntar as peças dessa figura dramática do Alentejo.

A pesquisa adensa-se. A crise económica estala na Europa e o jornalista confessa-se absorto, ausente desse tumulto social. Porquê? Porque na sua mente existe uma única figura, Catarina Eufémia. A ironia, lá está, é delicada. Um homem obcecado com a história do grande símbolo da luta social do passado, ignora, agora, as ameaças do presente. Os fantasmas, ao que parece, nunca abandonam os vivos.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

 

Anatomia dos Mártires

João Tordo, 2011

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