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O lugar deste cinema

“Florbela” tem tudo para dividir opiniões, tal qual o discurso do seu realizador. Será adorado e enxovalhado, aplaudido e assobiado. A intelligentia poderá dizer que espreme, espreme e sai pouco, o espectador que não ande nisto de opinar profissionalmente sobre cinema pode até sair satisfeito da sala. E por aqui? Bem, por aqui dividimo-nos.

“Florbela” é um filme desassombrado, com uma cinematografia de certo modo imaculada, bem filmado, com uma interessante recriação de época e com actores – Dalila Carmo, Ivo Canelas e Albano Jerónimo à cabeça – que sabem o que estão a fazer. Em muitos destes elementos faz lembrar o recente “Mistérios de Lisboa”, de Raoul Ruiz.

A obra tem méritos, desde logo por pegar numa figura tão negligenciada (e ao mesmo tempo tão polémica) como a alentejana autora de “Livro das Mágoas” e “Charneca em Flor”. Alves do Ó arrisca tocar na História de um país que parece ter medo das suas histórias. Fá-lo através de uma figura literária mas fugindo à poesia da autora, e dá-nos o retrato livremente adaptado de uma fase da vida em que Florbela Espanca não escreveu.

Estamos no Portugal do final da I República e vamos viajando entre Vila Viçosa, Matosinhos e Lisboa, tudo paragens da vida e dos desamores de uma mulher que quis ser livre, muito mais livre do que as mulheres estavam então destinadas a ser.

Florbela foge de uma relação turbulenta, casa com Mário Lage (Albano Jerónimo) e ruma a norte para ser uma boa esposa, uma mulher bem casada. Com as dificuldades adivinháveis para um espírito livre, lá vai levando o matrimónio. Até que o irmão Apeles (Ivo Canelas) a chama de Lisboa. O filme muda-se para a capital e por aí fica a maior parte do tempo, explorando a relação próxima e não menos estranha entre os irmãos, explorando uma certa Lisboa boémia.

“Florbela” é um turbilhão de relações amorosas e familiares, é um drama mas um drama que raramente passa da rama e da cama. Dalila Carmo pode ser uma excelente actriz mas não faz acreditar naquelas dúvidas existenciais que vai desfiando em tom às vezes artificial. Os diálogos, aí está o mais sério problema do filme de Vicente Alves do Ó, são, por vezes, várias vezes, plásticos e pouco críveis – e isto nota-se depressa. Como depressa se nota uma certa pieguice na banda sonora.

Sempre que a narrativa avança para o território da escritora que contempla o mundo à espera de redizê-lo, as coisas não corre bem. Sempre que fica pelo triângulo sentimental entre Florbela e os dois homens, aguenta-se melhor.

De resto, de que estamos nós para aqui a falar? De sensibilidades, de opiniões e, em última análise, de gostos pessoais. A melhor cena de todo o filme, a mais intensa, é o monólogo de Apeles sentado na cama enquanto fala da mulher que nunca pôde chegar a amar. A segunda melhor, é quando Apeles chora com um cigarro na boca. A voz de Ivo Canelas, a expressão de Ivo Canelas, a verdade nos olhos de Ivo Canelas são coisas que se encontram em poucos actores. Está tudo lá.

“Florbela” tem um lugar no cinema português, um lugar que o seu realizador não omite e que, por isso, lhe assenta. É cinema para as pessoas, para todas as pessoas que gostam de ver cinema de acordo com os modelos mais clássicos do melodrama. Não será, não é, o cinema de toda a gente. Mas ainda bem que existe e, existindo, ainda bem que existe com os méritos que aqui podem encontrar-se.

Hélder Beja

 

“Bela”, Vicente Alves do Ó

 

 

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