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Três línguas da Primavera

Lili Han, poetisa e tradutora, apresenta uma nova colecção de textos. A obra – em português, inglês e chinês – também inclui poemas de Manuel Pinho e Isabel Matos. Ye Si, autor de Hong Kong, também tem uma obra editada em português.

Maria Caetano

O quotidiano, a viagem, as línguas, o ritmo, as relações entre indivíduos – delicadas, nota Lili Han. A tradutora e poetisa lança amanhã no Centro de Indústrias Criativas “Estória da Primavera”, uma colectânea que guarda não apenas as suas próprias palavras, mas também as de outros: Manuel Pinho e Isabel Matos têm poesia vertida pela autora nesta publicação.

A sessão, organizada pela Associação de Estórias de Macau, está marcada para amanhã, às 15h,  e dá também a conhecer a primeira tradução para língua portuguesa de obras de Leung Ping-kwan, ou Ye Si, um dos mais reputados escritores da vizinha região de Hong Kong. Os poetas Yao Feng, Manuel Pinho e Song Zijiang, bem como a escritora Debby Sou, vão ainda declamar alguns dos seus textos.

“Estória de Primavera”, de Lili Han, é o segundo livro da autora publicado, desta vez numa edição trilingue e em três partes dividida. A secção final é reservada a trabalhos de tradução realizados pela também professora do Instituto Politécnico. “Traduzi no total sete poemas de Isabel Matos, ex-aluna minha, e do meu colega Manuel Pinho”, conta Han sobre a nova colecção de poemas.

Em 2010, a poetisa publicou “Estória do Inverno”. Parte dos poemas presentes nesta obra volta a ser publicada, agora, sob o signo do Verão, na segunda série de trabalho poético da autora.

“Esta colecção tem três partes diferentes, que representam diferentes fases da escrita. Na primeira parte, estão os poemas recentemente escritos. Na segunda, estão poemas que escrevi, foram revistos e traduzidos de chinês para português. A terceira parte tem que ver com a minha experiência de tradução”, descreve.

Em verso livre, a autora diz recorrer sem norma ou especial preferência à língua que, no momento da escrita, lhe permite “mais expressividade”. “Escrevo em chinês e em inglês, às vezes em português. Depende do momento em que tenho inspiração, em que língua a palavra sai da minha cabeça”, conta.

“Às vezes, quando estou no estrangeiro ou num lugar que tem o sabor do estrangeiro, é muito fácil para mim escrever em inglês ou português”, exemplifica. E a língua, ferramenta do ritmo, também condiciona imagens e referências.

“Farewell”, criado no ano passado, abre-se sobre o planalto do Tibete onde a lã das ovelhas pontua como flores – as imagens passam à frente dos olhos em inglês e, diz Lili Han, com isso empreendem uma viagem mais distante, ao coração mais antigo do Ocidente.

“No ano passado estive no planalto do Tibete e vi muitas paisagens parecidas com o Monte Olimpo. A paisagem natural também me fez lembrar a paisagem da Sicília, em Itália. Escrevi um poema em inglês que refere muitas figuras gregas e romanas”, relata. O território tibetano surpreende o leitor com Penélope e com as lutas de Tróia.

A viagem sucede também a bordo de um avião. O poema “da morte” (2009), que está na segunda parte da colecção, faz essa viagem a caminho do interior do indivíduo – como se vê, como o vêem, como se perpetua, parcial.

“São imagens poéticas que têm que ver com o nosso dia-a-dia. A partir destas imagens poéticas, quero projectar as relações delicadas entre pessoas”, afirma a poetisa, que experimenta diferentes processos, ainda assim, dependendo do idioma da criação.

“Em chinês tenho mais cuidado do que quando escrevo em português. Tem que ver com o ritmo, porque o poema não é só para ler – antigamente, era para cantar. Os sons e os ritmos contam muito. Para um mesmo significado, é preciso escolher as palavras mais próximas da poética”, diz.

Além da colecção de Han, é também apresentado “Mapa Refeito”, do poeta Ye Si (Leung Ping-Kwan), professor de Literatura Comparada da Universidade Lingnan, em Hong Kong, que é traduzido para português por Beatriz Brasil.

“Muitas obras dele já foram traduzidas para japonês, inglês, alemão. Esta é a primeira colecção dele que é traduzida para português”, conta Lili Han.

Tal como “Estória de Verão”, esta é uma obra em três partes. “A primeira parte da colecção é sobre alimentos e ele usa aqueles que são familiares para todos, como o sabor da papaia. A partir dessas imagens, desenvolve um diálogo com o leitor, usando o tratamento na segunda pessoa do singular para reforçar a intimidade”, descreve a autora.

De singular, os poemas de Ye Si têm também o facto de assumirem um sentido gráfico, que “é especial, parece um desenho”. “Usa também muitos termos, expressões únicas para Hong Kong e Macau, como o ‘yuan yang’. Supostamente é mandarim, mas não: em Hong Kong e Macau ‘yuan yang’ é um tipo de bebida que mistura café e chá com leite”, faz notar Lili Han, que conhece bem a obra do poeta de Hong Kong.

A Associação de Estórias prevê lançar ainda este ano mais duas obras: antologias de poesia de autores australianos e de membros da própria organização de criação e edição literária.

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