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Michelle, ma belle

O poder de dois grandes olhos azuis é imensurável. Que o diga Colin Clark, toda a equipa de “The Prince and the Show Girl” e que o diga o espectador de “My Week With Marilyn”, que confortável no seu sofá partilha daquele deslumbramento de não conseguir tirar os olhos dela.

Se Marilyn era assim tão cativante – e ao mesmo tempo enfurecedora – não sabemos (calculamos que sim), mas Michelle Williams assume o papel com perfeita mestria, deixando-nos à beira da loucura, ora querendo aplicar-lhe um par de estalos bem merecido, ora desejando levá-la para casa e oferecer-lhe um chá quentinho.

“My Week With Marilyn” é baseado nas confidências de Colin Clark, publicadas em 2000, sobre o tempo em que conheceu a actriz, quando trabalhou como assistente na produtora Pinewood Studios. Em 1956, Monroe foi a Londres filmar “The Prince and the Show Girl” com Laurence Olivier. Clark – o irmão mais novo do deputado conservador Alan Clark – tinha 23 anos e, como qualquer homem que convivesse com aqueles pestanudos olhos azuis, carnudos lábios vermelhos e exuberantes caracóis loiros, tombou de amores por ela.

Marilyn surge-nos como uma alma profundamente insegura, com queda para os ataques de pânico, continuamente achando que não é capaz, quando na verdade, tudo o que os seus colegas querem é que “seja sexy e pronto” – como exclama, às tantas Olivier, enfurecido.

À sua chegada toda a equipa se desfaz em delicadezas, ‘minha querida’ para aqui, ‘minha querida para ali’, arranja-se a casa perfeita, os assistentes necessários e tudo o que for preciso para que a actriz faça a sua magia. Mas basta um dia para ela se esquecer repetidamente das falas, para ter dúvidas existenciais sobre a credibilidade da comédia romântica que interpreta, ataques de pânico, surtos de insegurança e repetidos atrasos pela manhã. Tudo isto pode ser justificado pela quantidade desmesurada de compridos que toma, receitados não se percebe bem por quem. Neste ponto não sabemos bem se a cura é ou não pior que a doença.

Olivier – a estrela da companhia antes de Marilyn chegar – começa a perder a paciência. Nós também, que já duvidamos daquele número de menina perdida, que não consegue, que não sabe o poder que tem, que precisa tanto, ó tanto, de ser protegida. E ainda assim… não tiramos os olhos daquele rosto doce e ao mesmo tempo dissimulado, daquela figura sensual que aos olhos de hoje tem excesso de curvas – e tão bem que elas lhe ficam.

É neste contexto de conflito crescente que Marilyn se vira para o jovem assistente, pressentindo nele o fascínio que naturalmente todos os homens que circulam em seu redor desenvolvem – com a vantagem de Colin ser jovem e inexperiente, de uma inocência enternecedora. Os dois vivem um breve romance, que apesar da intensidade não vai muito além de uns beijinhos.

“Tudo o que eles vêem é Marilyn Monroe. Quando se apercebem que eu não sou ela, vão-se embora”, murmura a jovem actriz, cabeça encostada no ombro de Colin, mais para lá do que para cá, tal é o efeito da combinação explosiva de comprimidos e álcool. Apaixonado e imbuído de um compreensível ímpeto protector, pede-lhe que abandone aquela Hollywood que a deixa tão transtornada e deixe que ele tome conta dela. Deitada nua sobre a cama, expressão atordoada, Marilyn sorri: “E o que vais fazer? Casar comigo?”, “Porque não?”, responde sincero, olhos marejados. “Nunca poderia simplesmente abandonar tudo”, diz antes de adormecer. E é aqui que entendemos tudo.

O romance acaba, Colin fica com o coração “um bocadinho partido”, o filme é um sucesso e Marilyn parte de regresso aos Estados Unidos.

Numa das cenas finais, vemos Olivier a admirar o resultado da sua morosa produção. Depois de todo o espalhafato, da gritaria e do cansaço, ele reconhece, vencido pelas evidências, que tudo valeu a pena, porque nesse jogo de sedução com a câmara ninguém chega aos pés dela, a inebriante Marilyn Monroe.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

 

My Week With Marilyn

Simon Curtis, 2011

 

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