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Saber morder

Tenho com filmes como “Resident Evil” a mesma relação que tenho com a música techno: até posso tropeçar neles, se acontecer não fujo, mas espero dedicar-lhes o mínimo de horas possíveis desta curta existência. Claro que tudo o que aqui foi dito exclui a bela Milla Jovovich. Mas que diabo, ele há filmes que nem uma mulher bonita pode salvar.

“The Walking Dead” podia muito bem ser mais um “Resident Evil” – com a agravante de ter uma procissão de episódios e de não contar com a Milla no elenco – mas ainda bem que não é. Quantos motivos nos levam a pegar num livro ou a ver um filme? Os palpites dos amigos, claro. A promoção que nos atropela, sim. E também essa gente que opina sobre cinema e literatura e música e televisão. Foi um dos homens mais esclarecido a escrever sobre imagens em movimento em Portugal que me fez pegar em “The Walking Dead”. Foi João Lopes, jornalista do Diário de Notícias e um dos autores do blogue sound+vision. Em boa hora.

A série estreou em Outubro de 2010 e, já se percebeu, é terra de muitos zombies e alguns seres humanos que só querem acordar no dia seguinte sem uma mordida. Rick (Andrew Lincoln) é um polícia bom – como tantos dos polícias americanos, se já repararam – que é baleado durante uma patrulha e atirado para uma cama de hospital. Quando finalmente recupera e acorda, o mundo está transformado numa espécie de paraíso à moda de John Carpenter, com muito sangue e muito morto, com uma pontinha de esperança atada ao medo.

A primeira temporada de “The Walking Dead” mostra-nos então a caminhada deste homem por um país devastado e cheio de ‘walkers’, de zombies. Rick é o herói/xerife americano em busca da mulher e do filho que acredita vivos, apesar da desgraça reinante. Entretanto, o seu companheiro de patrulha, Shane (Jon Bernthal), trata de manter vivo a todo o custo um grupo de pessoas que conseguiu escapar das dentadas suculentas.

Os seis episódios deste primeiro tomo são uma boa introdução ao que vai desenvolver-se na segunda temporada, sobre a qual por aqui se escreverá em breve. “The Walking Dead” é uma boa série porque, além de cumprir com elegância todas as técnicas fidelizantes da ficção televisiva, que nos fazem salivar pelo episódio seguinte, consegue fugir ao rótulo simplista de série de zombies que a gente poderia pôr-lhe logo à cabeça.

A narrativa evolui para aquilo que de melhor pode extrair-se em matéria ficcional de um grupo de pessoas num mundo sem as regras que conhecemos e em situação limite: a vida em sociedade e o começo de uma nova ordem de coisas que, necessariamente, segue padrões diferentes daqueles que vigoravam antes.

Aqui, “The Walking Dead” faz um pouco aquilo que “Lost” fez bem durante algumas temporadas, antes de perder-se em cenas esotéricas disparatadas que só serviram para fazer render o filão. Nesta série criada por Frank Darabont também temos os bons que afinal nem sempre são bons e os maus que às vezes até parecem redimir-se. Temos o velho sensato e o militar durão, temos o puto asiático que resolve todos os problemas da gente crescida; e temos a mulher durona e sensual em contraposição com a mulher dona de casa e sensual.

A série vive muito das tensões e dos assaltos de consciência dos seus protagonistas. Além, está claro, dos momentos de maior acção e violência, com tripas, mioleira e sangria para todos os gostos. Mas nisto – e apesar de tudo estar tecnicamente bem feito – “The Walking Dead” não é diferente de outras séries e filmes de zombies. O que de facto a distingue é essa componente filosófica – de John Locke a Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau, com os quais, lembrem-se, “Lost” também jogava, inclusive no nome das personagens.

Claro que há coisas extremamente irritantes em “The Walking Dead”, como o culto das armas, numa adoração muito americana e quase cega; ou as fardas e a religião. Mas essas são também algumas das coisas extremamente irritantes deste nosso mundo real e sem zombies.

“The Walking Dead” confronta-nos com perguntas difíceis às quais esperamos nunca ter de responder em circunstâncias semelhantes. É, no entanto, essa suposição de ‘e se fosse eu, como é que me safava desta?’ que nos faz ver um episódio a seguir ao outro. Mesmo que não haja esperança para a espécie humana, mesmo que todos os caminhos não passem de becos. Ali como aqui, só queremos acordar no dia seguinte.

 

The Walking Dead  – 1ª Temporada

Frank Darabont, 2010

 

Hélder Beja

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