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O primeiro Salaviza

Antes da Palma de Ouro de Cannes e do Urso de Ouro do Festival de Berlim, João Salaviza seria apenas um jovem português com vontade de fazer carreira no cinema? A resposta à pergunta pode chegar através de “Duas Pessoas”, um exercício filmado pelo realizador durante o segundo ano do curso de cinema que frequentou na Escola Superior de Teatro e Cinema (Amadora, Portugal).

Na altura, o calendário marcava 2004 e, em mãos, Salaviza tinha a adaptação de um texto de Herberto Hélder – por Inês Clemente que em “Arena” foi directora de som.

Com a duração de cerca de oito minutos, a curta-metragem junta o actor Rui Morrison e a actriz Julie Sergeant. Dois nomes de peso que dão força a uma obra que conta apenas com três diálogos. Ou melhor, tentativas de.

“Queres beber alguma coisa?”, pergunta Morrison a Sergeant, os dois amantes que trocam olhares e vontades. Ele como cliente. E ela, pois então, como prostituta.

Até ouvirmos a magnífica voz do personagem masculino, passam uns quantos minutos que nos permitem deslindar algumas pistas que caracterizam muito do que é o cinema de João Salaviza. Exemplos: estética dos planos, cuidado extremo com a luz e, presumimos, total liberdade de acção para os actores.

Em “Duas Pessoas”, talvez, só haveria mesmo estas opções, já que é – literalmente – um filme pequeno. Olhemos para o espaço.

Um quarto serve de universo para dois indivíduos que, de certa forma, representam a complexidade – que é também simplicidade – das relações humanas. O argumento desenha-se essencialmente através de gestos, pequenas acções e miradas reveladoras.

“Não me interesso por narrativas muito épicas”, afirmou Salaviza ao PARÁGRAFO, antes de voar até Berlim onde estreou o depois galardoado “Rafa”.

A frase é paradigma da linha de trabalho do realizador que, com o seu primeiro trabalho, conquistou, em 2005, o Grande Prémio Take One no Festival de Vila do Conde e o Prémio de Melhor Realização no Festival de Curtas-Metragens de Oeiras. Um ano depois, “Duas Pessoas” arrecadava o Prémio de Melhor Ficção no Hyperion de Budapeste. Sim, o filme que tem apenas três falas, todas elas do mesmo personagem. A que ficou lá em cima, a convidativa “Queres um cigarro?” e a derradeira “Ainda não parou de chover” que encerra o filme.

Apesar de ficarem sem resposta, a mensagem que João Salaviza chega-nos, principalmente devido à sensibilidade e emoção que os dois actores conseguiram empregar.

Mas o que fica da primeira curta-metragem estreada pelo realizador? Em primeiro lugar, a obra apresenta uma estética própria, apesar de revelar influências do cinema português mais antigo, onde predominam silêncios e perguntas sem resposta. Em segundo lugar, reconstrói e organiza uma realidade que vive principalmente dos personagens e espaços que cria.

Pedro Galinha

Duas Pessoas, 2004

João Salaviza

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