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Livros ou pardais

É num dia de céu azul que a vida de Mr. Morris Lessmore é abanada. Sentado na sua varanda em Nova Orleães, rodeado de pilhas de livros, acrescenta algumas linhas à sua obra de capa vermelha. Até que acontece o que deveras aconteceu: o furacão Katrina.

Tudo vai pelos ares, as casas, as pessoas, os carros. E pior, as letras descolam das páginas dos livros e perdem-se pelo ar – o pânico de qualquer escritor. Passada a tormenta, Mr. Morris Lessmore vê-se sozinho, cinzento, num mundo também ele sem cor, onde pessoas choramingam pelos cantos e destroços de edifícios se amontoam ao acaso.

É aqui que a vida deste herói mudo sofre uma reviravolta. Uma mansão colorida, coberta de poéticas trepadeiras, surge encantadora. Lá dentro livros, livros e mais livros. Tantos livros quantos podem caber numa casa que é, à primeira vista, uma biblioteca. Mas não. Antes será acertado dizer que é um aviário ou um orfanato. Os livros esvoaçam, num movimento tal e qual o das aves. Têm perninhas dessas de pássaro e dormem empoleirados em prateleiras.

São livros que precisam de quem tome conta deles. E esse torna-se imediatamente o trabalho de Lessmore, sem hesitação ou dúvida. Tudo isto sabemos sem que seja pronunciada uma só palavra.

Começa então a grande tarefa do herói. Cuidar de todos aqueles seres, como se fossem filhos carentes. Vemos Lessmore acordar cedo na sua cama feita de letras e servir taças e taças de pequenos-almoços – cereais em abecedário, claro. Ele é uma espécie de Maria von Trapp mas sem cantorias. Veste-os com capas novas, repara-os quando estão velhos e doentes – um livro precisa mesmo de delicada cirurgia, que envolve minuciosas porções de fita-cola e uma quantidade considerável de leitura (afinal, que livro sobrevive sem ser lido?).

Além de cuidar dos livros, Lessmore, que entretanto vemos envelhecer, torna-se o livreiro da cidade, distribuindo exemplares à população. Os habitantes surgem cinzentos e assim que saem de mão dada com um livro ganham cor. Sim, de mão dada – não se diz sempre que um livro é um amigo?

Por fim, já de bengala e cabelos brancos, Lessmore despede-se dos seus livros. Missão cumprida, foi uma vida inteira.

“The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore” é isto, 15 minutos de puro encanto. E acima de tudo de subtis mensagens. Na página do filme de animação, podemos ler a explicação oficial: “É a história de pessoas que dedicam a vida aos livros e a quem os livros retribuem o favor”. De facto, a curta-metragem parece ser uma homenagem aos livreiros e a um mundo ainda habitado pelo livro, de capa grossa e de folha amarelecida.

Aquele santuário parece transmitir um aviso: cuidado, somos uma espécie em vias de extinção, precisamos ser protegidos, acarinhados. E ao mesmo tempo estes livros que são seres vivos, que são amigos e fazem companhia, apresentam-se como criaturas caprichosas e mimadas, que mantêm Morris Lessmore – atente-se na perfeição do nome – como prisioneiro.

Não sabemos ao certo se ele se importa, se vive ou não feliz naquela existência, apesar de tudo, solitária. Quando o vemos, ciente da morte, levantar-se da poltrona, cabelo grisalho e bengala, pegar no chapéu da juventude e decidido a colocá-lo cabeça, notamos nele uma melancolia, misturada com o agrado de uma tarefa cumprida. Se isso é bom ou mau, é impossível dizer. Mas a vontade que fica é de carregar de novo no play, uma, outra e outra vez.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

 

The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore

William Joyce, 2011

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