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O mistério octogonal

Os locais de culto deveriam estar impedidos de fechar. Pois bem que há questões de segurança, de manutenção, disto e daquilo que são muito compreensíveis. Mas se é sagrado é sagrado e as pessoas têm urgências que não coincidem com horários de funcionamento.

Chego ali e pumbas, portas trancadas. E a vontade de entrar cada vez maior, cada vez mais premente. Já se sabe, queremos sempre mais aquilo que não podemos ter. Então dou uma, duas, três voltas àquele edifício de oito lados a que chamam o pavilhão octogonal. É um gesto inútil, repetitivo, frustrado, mas caramba, uma pessoa precisa de tempo para se convencer de uma inevitabilidade deste tipo.

De regresso à entrada da Biblioteca Pública da Associação Comercial de Macau, fito insistentemente a porta. Vermelha, metálica, intransponível, brindada por uma gloriosa fechadura dourada. E dali viajo para chaves e espaços trancados, pessoas de acesso reservado e telefones controlados pela ditadura do roaming.

Olho para ela como se a trespassasse. Depois de forma mais meiga, bato as pestanas languidamente como quem diz ‘vá láaaaa, deixa-me entrar’. Ela nada, eu não desisto.

Às portas conheço-as bem, as que se fecharam, as que fechei, as que deixei encostadas, as que tranquei a sete chaves para nunca mais abrir. Há ainda as que esmurrei para entrar até perceber que o truque estava na subtileza do mecanismo.

Afasto-me, naquela lógica que se usa para as pinturas que só se apreciam vistas ao longe. Nisto reparo num toque de requintada ironia que são as janelas gradeadas do primeiro andar abertas de par em par, ali junto ao telhado com deliciosos toques retorcidos de Oriente. Abertas mas fechadas, o supremo símbolo do inatingível.

Mas o fascínio vence todas as barreiras e o engenho humano não descansa até ver luz ao fundo do túnel. Neste caso, ao fundo da ranhura. O momento é maravilhoso. Se cartas ali param, aumentando a aura misteriosa do local, isso não sei. Mas sei que por ali se abriu a porta, cinco centímetros por 20 ou coisa que valha. Foi como abrir um baú velho e poeirento, cheio de preciosidades da avó.

É que ali, no pavilhão octogonal com vista para o jardim de São Francisco exerce-se uma actividade quase extinta, arqueológica, mística. Ali, pasmem-se, lêem-se jornais. São homens idosos, de óculos na ponta do nariz, que concentrados folheiam esse papel mágico, cheio de palavras como aquelas que escrevo aqui.

Eu bem os vi, aos velhinhos e aos jornais, ali naquela casinha de janelas ao alto e porta vermelha, dois dias passados de aterrar nesta cidade. Nunca mais me esqueci. Talvez assim se explique esta história de amor, pois pode lá um apaixonado da tinta e do papel resistir a uma cidade que guarda para eles um oásis?

Espreitei, nariz desrespeitosamente enfiado na caixa do correio, as cadeiras vazias, os jornais e revistas a cobrir as paredes e as mesas, tudo ali, suspenso, à espera. Os jornais, como os livros, como a arte, como tudo o que vale a pena, de nada servem se não forem lidos. São letras mortas, prova de gente que quis falar mas não chegou aos ouvidos de ninguém.

Letras nunca lidas são a coisa mais triste que há. Por isso fechei a pequena porta ilegal e jurei voltar noutro dia. Num em que pares de olhos cansados as transportassem para outro lado e as dessem a alguém.

 

Inês Santinhos Gonçalves

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