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Em estado bruto

Sandra Castiço realizou, há uns tempos, um filme baptizado “Rockumentário”. O trailer começa assim: “No centro, existe uma cidade onde o rock ainda vive”. Ora a cidade a que a autora se refere é Coimbra. Dos estudantes, da sua bela Canção e dos Wraygunn que, na semana passada, editaram “L’Art Brut”.

Depois de cinco anos sem lançar qualquer álbum, talvez pela outra vida de Paulo Furtado, na pele de The Legendary Tigerman, a banda regressa com um registo que confirma as credenciais que lhe conhecemos: rock’n’roll, soul e blues.

Com menor nervo, mas maior delicadeza, “L’Art Brut” – o quarto longa-duração do sexteto – é feito de alguns contrastes, ‘doo-wop’ e teclados bem aprimorados. Coisas simples que acrescentam nova história aos 13 anos de carreira de um dos colectivos mais excitantes do panorama musical português da primeira década dos anos 2000. Como?

“Tales of Love”, e a sua narrativa escrita sobre quem foi apanhado nas teias do amor, em modo spoken word por Furtado, é o primeiro contacto que temos com o novo álbum. Aqui, somos transportados para um universo bem cinematográfico, onde as imagens vão surgindo a cada palavra, a cada camada de som. Depois, o primeiro single de “L’Art Brut”. “Don’t You Wanna Dance?” é uma espécie de balada reminiscente de épocas passadas, mas com a carga identitária dos Wraygunn entranhada.

À terceira um docinho chamado “Kerosene Honey” pelas vozes de Selma Uamusse e Raquel Ralha. Directa ao ouvido, desperta qualquer tímpano insensível. E com “That Cigarette Keeps Burning”, os Wraygunn parecem sair de cena para ficar somente Paulo Furtado na companhia dos Dead Combo.

Até à primeira metade do disco, passa-se ainda por “I Bet It All on You” que inicia qual cançoneta pop primaveril, mas abre lá para a frente, tornando-se num dos momentos mais efusivos de “L’Art Brut”. Ou seja, de “Shangri-La” (2007), o antecessor deste último disco, pouco resta – a não ser os protagonistas.

Desses, temos Raquel Ralha, já referida anteriormente, e que dá uma tareia na soturna “Track You Down”, talvez uma das melhores canções do álbum. A menina, conhecida de alguns pelos seus tempos de Belle Chase Hotel, encarna aqui (e tão bem) o papel de femme fatale.

Para o final está reservado ainda outro grande momento. Os Wraygunn, em modo homenagem, embrulham de forma hipnótica e durante mais de seis minutos “Cheree” dos Suicide. Obrigatório. Tão obrigatório que fecha subtilmemente, dizemos nós, o sucessor de “Soul Jam” (2001), “Eclesiastes 1.11” (2005) e “Shangri-La”.

L’Art Brut, 2012

Wraygunn

 

Pedro Galinha

 

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