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Ama como a neurose começa

Hélder Beja

Os que não estudámos a fundo a obra de Sigmund Freud e Carl Jung sabemos que o primeiro fundou a psicanálise, que estudou a repressão da sexualidade como causa de todas as neuroses, que era tido por uns como génio e por outros como depravado, que gastou boa parte da vida a tentar interpretar os sonhos e que nos deixou conceitos como ego e superego. De Jung sabemos que primeiro foi amigo de Freud e das suas teorias, para depois discordar dele e ser rotulado de místico. E que os seus nomes aparecem normalmente um a seguir ao outro. Como Marx e Engels, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Ronaldo e Messi, em circunstâncias e por motivos tão próximos como a Terra e a Lua.

David Cronenberg quis contar a história destes dois homens em “A Dangerous Method” e, ao contrário do que seria de esperar, o foco ficou mais sobre Jung que sobre Freud, que é o mesmo que dizer mais sobre Michael Fassbender que sobre Viggo Mortensen. Cronenberg, canadiano, é um dos melhores cineastas vivos. É um contador de histórias, mas um contador de histórias perverso – e o perverso e o belo (aquele belo da Estética e dos gregos) dão-se bem muitas vezes.

“A Dangerous Method” narra então o casamento e o divórcio de dois intelectuais decididos a deixar a sua marca no campo da psicologia e da psiquiatria. Um austríaco (Freud) e um suíço (Jung), um que teoriza sobre o sexo, outro que não consegue deixar de ceder às tentações do sexo. Num caso como noutro, ele está no meio de nós. O sexo, claro.

Depois há Keira Knightley, ela que este ano será só Anna Karenina (como se alguém pudesse ser Anna Karenina) num filme de Joe Wright, o mesmo de “Atonement” e “Pride & Prejudice”. Aqui ela é Sabina – esse nome tão tentador que será para sempre o da mulher do romance de Milan Kundera –, uma judia que é paciente ao mesmo tempo que estuda o fenómeno da psicanálise.

“A Dangerous Method” é também uma história de amor para o grande público e quem não souber do desprezo a que David Cronenberg sempre foi votado por Hollywood, que nunca o nomeou para coisa alguma (e isto infelizmente não é uma piada), pode pensar que o filme tem toda a cara da Academia norte-americana. Talvez o nome do realizado explique por que “A Dangerous Method” não recebeu qualquer nomeação ao Óscar, nem mesmo para a interpretação luminosa de Keira Knightley. Seja como for, a justificação é tão risível que mostra muito sobre a importância dos propalados grandes prémios do cinema.

Cronenberg está-se certamente marimbando para esta espécie de comediazinha negra dirigida por senhores de smoking. O homem de “Videodrome”, de “The Fly”, “Crash” e “eXistenz” parece até ter aberto um novo capítulo desde “A History of Violence”, em 2005. A partir daí todos os filmes passaram a contar com Viggo Mortensen. Mas, mais relevante que isso, todos foram também mais arrumadinhos. Mesmo assim, havia sempre por ali qualquer coisa à Cronenberg, a fazer-nos lembrar que está ali uma cabeça com a sua boa dose de demência.

“A Dangerous Method” é provavelmente o filme mais bem comportado do realizador. É certo que Sabina diz ‘I want you to punish me’ a Carl Jung e que apanha umas valentes palmadas enquanto os dois se enrolam na cama, mas esta é a maior maluqueira de toda a fita (a par de um extra de Vicent Cassel), uma espécie de beijo entre namorado púberes se pensarmos nas piruetas que Cronenberg costuma engendrar.

O argumento é clássico e é bom. Tem passagens de antologia, quase sempre pela boca de Jung. Como quando explica a Sabina as vírgulas do coração.  “Emma is the foundation of my house, Toni is the perfume in the air.” Ou “sometimes you have to do something unforgivable just to be able to go on living”. Ou ainda, e mais que tudo, “my love for you was the most important thing in my life. For better or worse, it made me understand who I am”. O homem, se não se tivesse metido naquilo da psicanálise, até poderia ter sido escritor.

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