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Cão como nós

“Amor es traición. Amor es angústia. Amor es pecado. Amor es egoismo. Amor es esperanza. Amor es dolor. Amor es muerte. Qué es el amor? Amores perros.”

A violência e o cinema centro e sul-americano têm uma relação várias vezes promíscua, algumas vezes gratuita. Os filmes que tentam retratar um certo Brasil urbano (e que até podem ter lá os seus méritos) sofrem muitas vezes disso, de “Cidade de Deus” a “Tropa de Elite”. “Amores Perros” (2000), que é anterior a estas enxurradas de mortos e tiros, viu-se depois catalogado no mesmo lote – o dos filmes que mais parecem telediscos, dos realizadores espertalhaços que abusam da porrada e do sangue para impressionar a plateia.

Alejandro Gonzales Iñarritu tinha tudo para que o vissem como mais um explorador desse filão chamado violência. Mexicano, jovem, com passado ligado à música, à TV e à publicidade. “Amores Perros” foi a primeira longa-metragem do realizador que, com Alfonso Cuarón e Guillermo del Toro, mostrou que no México o cinema estava vivo. E foi também o primeiro de três filmes com argumentos assinados por Guillermo Arriaga – os outros foram “21 Gramas” e “Babel”.

Iñarritu não é europeu. Mesmo assim, até podia ter crescido a ver Godard, Fellini, Bergman e outros mestres da mise-en-scène (que é um termo espectacular). Mas não cresceu. Iñarritu cresceu com o cinema norte-americano e com a literatura visceral do seu país (leia-se Roberto Bolaño) e de toda a América Latina. Por isso não é de estranhar que “Amores Perros” abra com uma cena de carro que vem direitinha de “Reservoir Dogs”, a primeira longa de Quentin Tarantino, estreada oito ano antes. E também por isso não é de estranhar que nele não encontremos o tom contemplativo que encontramos no cinema do mexicano Carlos Reygadas. Diferentes estradas levam a diferentes destinos.

Isto tudo para dizer que, à sua maneira angustiante, “Amores Perros” é um filme dos diabos, um filme que não nos deixa descansar. Iñarritu decidiu pegar em três segmentos e, encadeando-os na mesma narrativa, construir um puzzle de lugares e personagens. Octavio (Gael Garcia Bernal) é a âncora do filme, um rapaz que se apaixona pela cunhada e que, sem dinheiro nem vontade de trabalhar, decide usar a ferocidade do seu cão como fonte de rendimento em lutas selvagens. El Chivo (Emilio Echevarría), a grande personagem de toda a fita, é um vagabundo afecto à raça canina e um ex-militar e matador profissional a braços com remorsos familiares. Finalmente, Daniel (Álvaro Guerrero) é um jornalista que decide trocar a mulher e o lar por uma modelo loura e seu respectivo caniche, naquela que é a mais dramática das histórias.

Estes fragmentos da Cidade do México estão atados por um momento crucial e comum a todos, que o cineasta usa como epicentro para, em redor, explanar o que bem entende e que, sejamos justos, não são apenas recursos técnicos de toda ordem.

Sim, Iñarritu é um craque do croché narrativo, é um virtuoso da montagem e, sim, explora a banda sonora para nos eriçar os pêlos dos braços. Só que tudo isto é posto ao serviço de uma igual capacidade de olhar a vida. Como, lá está, a violência. Como a família e o que, quando ela não nos suporta, encontramos para não ir ao fundo. Como o poder do acaso e a ditadura de um certo ideal de beleza. Como a miséria. Como o amor.

O poder da câmara de Iñarritu não é o de, através dos movimentos bruscos que opera, querer fazer-nos acreditar; ou o de pretender ser o reflexo de uma cidade carregada de problemas como há-de ser essa do México. Ele não tem essa pretensão, não como a encontramos tão evidente e redutora em “Tropa de Elite” e derivados de favelas. A câmara de Iñarritu, que voltou a fazer o mesmo em “21 Gramas” e recentemente em “Biutiful” – um grande filme, vá lá – não quer saber do geral. Mergulha antes no particular, fecha-se aí, perde-se, delira.

Quem gosta de estar vivo (e estar vivo não é só o contrário de estar morto) tem de gostar de “Amores Perros”. Tem de gostar de “Amores Perros” e, como um cão doente de surrealismo, morder o sangue dos dias.

 

Amores Perros

Alejandro Gonzales Iñarritu, 2000

 

Hélder Beja

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One thought on “Cão como nós

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