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La truca

Comecemos, desta vez, de maneira diferente. “A Better Life”, de Chris Weitz, realizador de “About  a Boy”, é filme que bem pode dizer muito a quem vive em Macau. O porquê talvez não seja óbvio, já que trata da vida de um pai solteiro, trabalhador ilegal mexicano, a viver em Los Angeles com o filho adolescente.

Algo, no entanto, parece familiar naquela cidade de luxos, de gente com empregada, jardineiro e cozinheira, pequenos duendes invisíveis e morenos que tratam de tarefas também elas invisíveis por preços igualmente invisíveis. Gente de sotaques estrangeiros, com filhos que frequentam escolas da periferia e para quem os pais sonham futuros prósperos.

Considerações à parte, entremos, então, no filme. Carlos (Demian Bichir) é jardineiro, mas não dos que apenas podam rosas. Não, ele sobe às árvores, transporta vasos gigantes e planta arbustos em locais perigosamente altos. Todos os dias se junta a outros trabalhadores ilegais num ponto estratégico da cidade e espera. A cena já foi vista em muitos outros filmes e documentários: um grupo de homens de mangas arregaçadas e olhar desesperado grita “Eu, eu, eu!” quando um carro se aproxima, disposto a escolher, entre aquelas dezenas, um ou dois trabalhadores para o dia. Só quem tem transporte e maquinaria própria consegue escapar desta total precariedade – passando, então, para uma precariedade parcial.

Ao drama laboral junta-se o pessoal. Carlos é pai de um adolescente (13, 14 anos?) que como todos os adolescentes responde torto, é injusto, não liga à escola e pede dinheiro que não existe. Na escola pobretanas que frequenta não faltam os gangues latinos, compostos por carecas tatuados de camisola à “wife-beater”, que rodeiam o jovem Luís, como leões em torno da presa. Sangue novo, sangue novo, parecem dizer com olhos perfurantes.

Mas as coisas parecem estar prestes a mudar para a família Galindo. O pai consegue a muito custo dinheiro para comprar uma carrinha pick-up – ou como ele diz “la truca” – que lhe vai possibilitar não mais estar dependente de outros para conseguir trabalhos. Bons ventos sopram por alguns minutos no ecrã.

Tudo descamba quando a ‘truca’ é roubada, logo no primeiro dia de trabalho, por um infeliz que Carlos escolhe para vir com ele. Outro desses homens cheios de fome e para quem a ética é luxo.

A partir daqui, pai e filho iniciam uma demanda para voltar a encontrar a carrinha roubada. Destinada a falhar, a busca consegue aproximar os dois, o que só por si já é bonito.

O final, não revelamos. Dizemos apenas que não é feliz e que isso, de certa forma, ajuda a enriquecer o filme, que roçava, até aqui, o previsível. Mas mais que o argumento, o que salta à vista (e aos corações mais sensíveis) é a interpretação de Demian Bichir, como um herói sem fortuna. Um homem que diariamente sustém a respiração e aguenta só mais um bocadinho, fiel aos princípios – que só são fáceis de manter para quem não luta pela sobrevivência –, comprometido com o objectivo de dar ao filho, não só uma vida melhor, mas um exemplo de integridade.

O homem, caramba, merecia ficar com a ‘truca’. Mas a vida, já se sabe, não é como a gente quer.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

A Better Life,

Chris Weitz, 2011

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