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Festivais colocam literatura chinesa no circuito internacional

Primeiro, Hong Kong. Depois, Xangai, Pequim, Macau e o mundo. Autores e editores destacam o papel das novas plataformas de projecção internacional do livro chinês.

 

Vera Penêda em Pequim

 

Os amantes dos livros na China sabem que a festa da palavra escrita chega com a Primavera. Mas com dois festivais em Pequim e outro em Xangai a decorrerem simultaneamente entre 25 de Fevereiro e 23 de Março, profissionais e fãs de literatura têm de dividir a sua atenção entre os eventos literários que dominam a agenda cultural durante o mês de Março. Autores, editores e leitores – alguns dos quais estiveram no 1º Festival Literário de Macau em Fevereiro – contam como o circuito de festivais está a levar a literatura Chinesa além-fronteiras.

“Esta época dos festivais literários é a altura do ano que eu mais gosto em Pequim”, diz Chris Hawke que nunca perdeu um festival literário desde que se mudou para a capital chinesa há quatro anos. “Quando [no ano passado] soube que haveria um segundo festival na cidade torci o nariz, mas fiquei impressionado porque ambos os eventos estão bem organizados e apresentam uma óptima selecção de palestras e workshops”, explica Hawke, professor de jornalismo na Universidade de Comunicação da China que frequenta ambos os eventos desde o ano passado.

“Estes festivais interessam-me sobretudo pela oportunidade de ouvir escritores chineses a falarem sobre os seus livros e processos criativos, que é rara durante o resto do ano”, acrescentaHawke, de nacionalidade canadiana, admitindo que a sua curiosidade pela literatura chinesa despertou desde que vive em Pequim.

“Também é interessante ver que cada vez mais autores estrangeiros colocam a China no seu circuito, se interessam por vir conhecer o país e vir mostrar o seu trabalho num mercado imenso”, acrescenta.

 

Rota literária

 

Com menos de uma semana de intervalo, Pequim recebeu a segunda edição do Festival Literário Capital M, que se despediu no início deste mês depois de 25 autores chineses e estrangeiros terem visitado a cidade para mais de 20 actividades literárias sobre temas diversos como a gastronomia, fotografia e economia.

O talento internacional liderou o evento no restaurante Capital M, que convidou nomes como o norte-americano Harold McGee, autor de livros de cozinha e colunista do jornal The New York Times, e Shahidul Alam, fotógrafo e activista do Bangladesh.

Embora esteja ainda a ganhar pulso em Pequim, o evento conta com o prestígio do festival que ocorre no restaurante do mesmo grupo em Shanghai, o M localizado no Bund. O evento já vai na 10ª edição e incluiu autores de renome como Matt Groening, criador da séria televisiva “The Simpsons”, a autora norte-americana de origem chinesa Amy Tan, que escreveu The Joy Luck Club, e a princesa da Holanda, Petra Laurentien, autora de livros para crianças.

O festival de Xangai nasceu de uma colaboração com o Festival Internacional de Literatura de Hong Kong, o mais antigo do circuito chinês, aproveitando para trazer os autores estrangeiros para a China Continental quando estes se deslocam a Hong Kong.

Também hoje termina o festival internacional no café-livraria The Bookworm (BLF). Este ano, o BLF recrutou pesos-pesados da literatura chinesa como cabeças-de-cartaz e alargou as actividades paralelas para incluir mais música, cinema, ateliês de escrita e actividades infantis no seu programa.

Além de Yu Hua, o Bookworm também convidou Mai Jia, o autor de livros de thriller e espionagem mais popular na China, e preparou um painel de discussão acerca da publicação de livros em formato digital.

“Uma pessoa não tem outra alternativa se não escolher, porque há tantos eventos literários tão bons e para todos os gostos a acontecer ao mesmo tempo”, diz Hawke, que comprou um bilhete para o workshop de escrita “Arte do Perfil” no festival do Capital M, outro para o painel de discussão acerca de jornalismo na China no evento do The Bookworm.

O professor ficou em lista de espera para ouvir o célebre escritor chinês Yu Hua, autor de “China in Ten Words”. A sessão esgotou em dois dias, mesmo depois de o The Bookworm ter agendado uma segunda palestra do autor chinês.

“Estes festivais oferecem aos autores chineses uma plataforma privilegiada para apresentarem o seu trabalho, encontrarem novas audiências e partilharem o seu processo criativo com outros autores, editores e leitores”, diz Jimmy Qi, autor de “Yu Li, confessions of an elevator operator”.

“Sobretudo, o festival organizado pelo The Bookworm é bastante influente e é seguido de perto pela imprensa local e por algumas publicações internacionais”, acrescenta Qi, notando que através da apresentação do seu livro no café-livraria de Pequim, e desde que deu uma entrevista à imprensa local, o seu livro ganhou notoriedade fora da China graças à Internet.

Qi visitou o festival Rota das Letras em Macau no passado mês de Fevereiro. “O festival em Macau, embora mais pequeno, foi uma boa surpresa e uma óptima oportunidade de contactar com autores e um público diferente do da China Continental”, observa.

 

Eco internacional

 

Editores e autores chineses, dentro e fora da China, são unânimes em reconhecer o papel essencial dos festivais locais na promoção internacional do que se escreve na China. “Estes festivais são uma janela para a literatura chinesa no estrangeiro e para um público estrangeiro dentro e fora da China”, nota Harvey Thomlinson da Make-Do Publishing, uma editora sedeada em Hong Kong especializada na tradução de literatura chinesa contemporânea.

“Este circuito literário permite às editoras perceberem quais são as novidades e tendências no mercado literário chinês. Tem uma contribuição tremenda no que respeita a encontrar novos mercados para a ficção chinesa”, diz Thomlinson, que também se deslocou ao festival Rota das Letras em Macau.

“Por exemplo, o festival de Macau – que também estava associado a uma livraria local –, embora na sua primeira edição, foi essencial para criar diálogo entre autores e a literatura em português e em chinês”, diz o editor, mencionando que o livro “Leave Me Alone” do chinês Murong Xuecun vai ser publicado em português sob a chancela de uma editora brasileira este ano.

A China é convidada VIP na Feira do Livro de Londres 2012, que se realiza entre 16 e 18 de Abril próximos com um programa de mais de 400 seminários e eventos, 1500 empresas e mais de 24500 profissionais da indústria literária.

“Devido ao passado político da China e às restrições aos autores que escrevem em território chinês, estes festivais são uma ponte importante para o mercado internacional”, observa Xue Xinran, autora de “As Mulheres da China” que nasceu em Pequim mas vive actualmente em Londres.

Xue colabora com a Feira Internacional do Livro de Pequim, participou várias vezes no BLF e no festival de Hong Kong, que este ano se realiza entre 5 e 14 de Outubro.

“Por outro lado, a barreira do idioma é um entrave à participação de autores chineses em eventos estrangeiros. Portanto, a tradução facultada nestes eventos e as oportunidades que abrem à tradução da literatura chinesa em geral são duas vantagens essenciais”, acrescenta Xue.

“A percepção e interesse nos autores chineses estão a aumentar graças ao papel crescente da China no contexto internacional. Estes festivais também desafiam os autores chineses a escreverem com um sentido de universalidade mais profundo, contribuindo para que estes se possam vir a tornar autores de qualidade mundialmente reconhecidos”, Xue conclui.

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