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Uma cena muito à frente

Em Macau, o teatro é coisa de gente nova. É jovem o público e são jovens os actores. Por cá, peças não faltam, mas são ainda amadoras, tendência que se está a inverter com a crescente profissionalização no estrangeiro, quer de actores, quer de dramaturgos e encenadores. Macau é bom de palcos mas ainda rende pouco para quem quer viver da arte.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Se há arte que Macau aprecia é a performativa e não falta quem queira subir ao palco. Mas o teatro, que por cá é muito e constante, parece estar a mudar. Quem são os novos actores? E o público, o que quer? Em vésperas do Dia Mundial do Teatro, seis grupos de Macau levantam o véu – ou melhor, a cortina – sobre o assunto.

Não se sabe ao certo quantos grupos e associações de teatro há no território, mas só este ano o Instituto Cultural já foi contactado por 16 e imagina que existam “para lá de 20”. Na lista estão Hiu Kok, Pequena Montanha, Step Out, Dóci Papiaçam di Macau, Cheng Hin e Point New Art , com as quais o PONTO FINAL falou. Três destes grupos dizem já considerar-se profissionais, ou seja, funcionam a tempo inteiro e pagam salários.

A opinião é unânime: o teatro de Macau, apesar de ainda ser maioritariamente amador, caminha para a profissionalização, em grande parte devido ao aumento de amantes da arte que saem do território com o fim de obter uma formação superior e depois regressam para por cá subirem aos palcos. O momento é crucial, dizem os grupos, e é preciso que o teatro dê, finalmente, um passo em frente.

“A maioria dos grupos de Macau está a enfrentar mudanças, são amadores mas muitos estão a tornar-se companhias profissionais, já têm vários artistas com formação profissional”, diz Erik Kuong, responsável por duas associações de teatro: a Cheng Hin, estabelecida em 1991, e Point New Art, nascida em 2008. Se a primeira tem já pouca actividade, a segunda está cada vez mais activa, focando-se no “teatro contemporâneo”. O núcleo duro, conta o director, é composto por nove pessoas, todas profissionais.

“Cada vez mais jovens vão para Hong Kong, Taiwan ou Continente para estudar. Muitos outros saem do país. Depois regressam, mas têm de sair de Macau se querem receber formação”, afirma Kuong. O mesmo diz Billy Hui, membro da direcção do grupo de teatro mais antigo de Macau: a Associação de Teatro Hiu Kok, responsável por, pelo menos, duas grandes produções anuais e quatro peças mais pequenas. “Os actores têm de ir para o Continente, Taiwan, Singapura ou Reino Unido para obter um diploma universitário. Em Macau não há suficientes recursos humanos, experiência ou professores qualificados, por isso é importante enviar os alunos para fora”, defende o encenador.

No entanto, Hui não encara esta saída de artistas como algo negativo – até porque, ao que parece, a maioria regressa ao território. “É bom para Macau. As pessoas do teatro precisam de ter uma mente aberta, olhos abertos para ver o mundo. A experiência internacional é importante não só para os actores mas para toda a gente de Macau”, salienta. Na experiência de Hui, a falta de mundividência traz desvantagens aos actores: “Falo muito com eles e tento que pensem mais, façam uma análise – a maioria dos actores não é muito boa nisso e isso tem que ver com o facto de alguns ficarem em Macau e não terem uma visão ampla de como a sociedade funciona”.

Diferente opinião tem Mok Sio Chong, dramaturgo e fundador do grupo Step Out, que coloca nas suas peças um especial enfoque na história e cultura de Macau. Não estando contra a obtenção de formação superior no estrangeiro, Mok considera que a grande prioridade dos jovens actores deveria ser o entendimento da realidade local. “Acho que precisam de ter mais contexto local para desenvolverem o seu trabalho e fazerem do teatro algo mais localizado. Têm de saber mais sobre a nossa sociedade, não apenas técnica profissional”, defende.

Mok salienta a importância de manter a “memória e a história mais antiga” numa cidade em profunda mudança. “Não temos muita história local nos currículos escolares. É preciso criar performances que façam pensar na nossa identidade”, diz.

A técnica dos que regressam após formação fora de Macau “é muito boa”, mas falta essa ligação ao território e uma certa sensibilidade social, aponta o dramaturgo: “Temos de fazer mais do que entreter, temos que passar uma mensagem social. Já há entretenimento em todo o lado. Podemos usar o teatro para gerar discussão. No teatro estamos todos juntos, cara-a-cara, no mesmo espaço, ao mesmo tempo – devemos criar algo juntos”.

 

Patuá ‘sem rei nem roque’

 

A história e identidade local são o prato forte da única companhia de teatro em patuá, a Dóci Papiaçam di Macau. Para este grupo, a busca de formação no estrangeiro não faz tanto sentido, pela especificidade do seu trabalho, mas a técnica – ou ausência dela – mantém-se como uma das principais preocupações.

“O que está a faltar, para já, é formação técnica”, diz Miguel Senna Fernandes, director e encenador do grupo, reconhecendo que o problema “não é tão premente para os actores chineses”.

“Teríamos uma dinâmica completamente diferente se tivéssemos formação antes das peças, para saber o que é estar em palco, como olhar, como direccionar a voz”, acusa. E não é só entre os actores que a falta de formação é um problema: “Precisamos de pessoas que escrevam. Não exijo que o façam em patuá. Escrevam em português e eu, ou outra pessoa, trabalho sobre os textos”.

O Dóci Papiaçam, garante Senna Fernandes, “está cheio de pessoas com muita vontade” e que “no momento da performance fazem milagres”. No entanto, admite, “acusam sempre a falta de formação”. Para colmatar o problema pretende pedir o apoio do Instituto Cultural, para que o grupo possa beneficiar de workshops ou parcerias com outras instituições que permitam melhorar a técnica dos seus actores.

Uma experiência passada leva o encenador a acreditar em bons resultados. “Há dez anos fizemos uma parceria com o teatro Hiu Kok. A experiência foi estupenda. Eles são muito rigorosos e ficaram um pouco à rasca com a nossa forma de estar em palco, sem rei nem roque, mas as coisas funcionaram”, conta.

 

Macau é bom argumento

 

Até companhias tão antigas como a Hiu Kok padecem das maleitas do amadorismo. Apesar do grupo ter cerca de 70 membros, dos 24 aos 60 anos, todos se dedicam ao teatro em part-time, depois das aulas e dos empregos.

“O teatro é muito agitado, temos ensaios todas as noites. [Há medida que os actores envelhecem] começam a ter problemas, formam família, têm filhos, as mulheres vêm buscá-los”, graceja Billy Hui.

Mok Sio Chong acredita que esta situação faz com que seja difícil viver somente como actor em Macau: “Se alguém se quiser dedicar a tempo inteiro ao teatro tem de ser encenador ou administrativo. Só como actor, é preciso fazer outras coisas para ganhar dinheiro”.

Já Erik Kuong acredita que é possível viver da arte, “mas, claro, não é fácil”. “Em todo o mundo é assim, até na Europa. Actores e actrizes trabalham como empregados em restaurantes, é muito normal. E são actores profissionais na mesma. Mas aqui as pessoas pensam que têm de trabalhar logo a tempo inteiro, como noutro tipo de emprego. Mas o que faz o actor não é trabalhar oito horas por dia”, defende.

Macau, diz Kuong, é uma boa cidade para quem quer ser actor, já que há “muitas oportunidades para subir ao palco” e “ainda muito espaço para melhorar”.

E o público? É tão entusiasta como os actores? Ao que tudo indica são novamente os mais jovens a encher as salas, entre os 18 e os 35 anos. Para  Billy Hui a audiência mais madura é afastada por ter padrões mais elevados. “Querem ver coisas muito profissionais. Se um grupo de Hong Kong vier, já compram bilhete”, opina.

Erik Kuong desenvolve mais a ideia: “As pessoas com mais de 40 anos sentem ‘isto não me diz respeito, é demasiado jovem’”. Há, acredita, uma falta de identificação devido aos temas das peças e aos próprios actores, que são na maioria muito jovens.

Atrair o público mais velho é um dos objectivos da Point New Art e Kuong espera desenvolver espectáculos que vão mais ao encontro dos interesses deste. “Temas que estejam ligados às questões da idade, dramas relacionados com questões sociais e até políticas”, especifica.

No geral, o público de Macau gosta de peças “mais fáceis de perceber, que não sejam muito tradicionais, gostam de ver coisas novas mas não podem ser muito experimentais”, afirma Billy Hui. Um bom exemplo é a peça “Hamlet B”, que recentemente esteve no Centro Cultural, diz o encenador. Em termos de tema, o que vende mais bilhetes é a comédia, assegura.

Acima de tudo, o público gosta de ver Macau em cima do palco: “Há dois anos escrevi uma peça sobre Macau, de forma cómica. Falava das diferentes pessoas que cá vivem e de como podem trabalhar juntas. Tivemos óptimos resultados, muita gente veio ver. Acho que a audiência sente necessidade de falar sobre Macau e não há muitos dramaturgos que o façam”.

 

:DESTAQUES:

 

“As pessoas do teatro precisam de ter uma mente aberta, olhos abertos para ver o mundo. A experiência internacional é importante não só para os actores mas para toda a gente de Macau”, diz Billy Hui.

 

“Temos de fazer mais do que entreter, temos que passar uma mensagem social. Já há entretenimento em todo o lado. Podemos usar o teatro para gerar discussão. No teatro estamos todos juntos, cara-a-cara, no mesmo espaço, ao mesmo tempo – devemos criar algo juntos”, defende Mok Sio Chong.

 

“Em todo o mundo é assim. Actores trabalham em restaurantes, é muito normal. E são profissionais na mesma. Mas aqui as pessoas pensam que têm de trabalhar logo a tempo inteiro, como noutro tipo de emprego. Mas o que faz o actor não é trabalhar oito horas por dia”, afirma Erik Kuong.

 

De pequenino é que se cria o bichinho

 

A arte para os pequeninos tem estado adormecida, mas o cenário pode estar prestes a mudar. Quarta-feira, foi apresentado o programa do Festival de Artes de Macau e em 33 produções, oito são vocacionadas para as crianças, três delas da autoria de grupos locais.

Um desses grupos é a companhia de teatro Pequena Montanha, nascida em 2007 com o intuito de colmatar a escassez de oferta cultural para os mais pequenos. Nos dias 5 e 6 de Maio apresenta “O Pequeno Sonho do Pequeno Macaco” na Casa do Mandarim. “Em Macau não há grupos de teatro para crianças e é importante promover a arte infantil”, justifica Billy Hui, consultor artístico do grupo.

A ideia, explica, foi também criar oportunidades de trabalho para os jovens que regressam a Macau depois dos estudos, já que a companhia funciona num regime de “freelance full-time” em que os actores são pagos. Isto é possível porque “os bilhetes para as peças infantis são mais fáceis de vender”. Até agora, o trabalho da Pequena Montanha tem sido um sucesso, o que se explica, também, pelo trabalho que tem feito junto das escolas: “No ano passado tivemos seis peças completamente esgotadas. Somos uma companhia pequena e seis peças, para nós, significam muito trabalho”.

Foi por causa do teatro infantil que Sérgio Rolo aterrou em Macau, em Outubro do ano passado, vindo de Portugal. O antigo actor do Teatro de Marionetas do Porto e fundador da associação Marionetas do Algarve tem apresentado no território o espectáculo “Jardim, Jasmin”, um “one man show” onde a música e as marionetas assumem papéis essenciais.

“Tenho feito o meu espectáculo em escolas e gostaria muito de fazer uma carreira em teatro em Macau”, admite Rolo. No entanto, sente que há no território “pouco hábito de levar as crianças aos espaços de teatro”.

Para o artista, o envolvimento das escolas é essencial: “Isto podia ser uma bola de neve, podíamos ter algo temático relacionado com o programa escolar que se pudesse inserir ou desenvolver a partir do trabalho de teatro, que depois fosse aprofundado nas escolas. Até para tentarmos desligar um pouco as crianças desse hábito da televisão e dos jogos e dar-lhes algo mais vivencial e efémero como o teatro”.

O problema da língua, apontado como uma das dificuldades do teatro de Macau em chegar a todos os públicos, pode ser mais facilmente contornado no teatro infantil e essa potencialidade, defende, não está a ser aproveitada. “Podemos conseguir espectáculos muito mais visuais que são universais. Até porque a palavra, por vezes, pode virar-se contra nós se os textos não forem muito bons e apelativos”, explica.

Apesar das dificuldades, Rolo, cujas peças são em português, tem intenções de ficar por Macau e aprofundar a relação com o imaginário infantil do território: “Enquanto criador interessa-me mais fazer espectáculos para as crianças de Macau do que propriamente para um nicho, para portugueses ou ingleses. Interessa-me muito conhecer o imaginário infantil macaense e chinês”.

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