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A maldade mora em casa

Quem disse que a maternidade é um estado de graça? E se o nosso filho, logo após a concepção, trouxer tudo menos a luminosidade bíblica da gravidez? E se ao nascer se limitar a gritar desenfreadamente? E se a criança, pequenina e fofinha, lançar ao mundo olhares de ódio ao invés de sorrisos? E se, por fim, o adolescente for um assumido psicopata?

“We Need to Talk About Kevin”, o livro e o filme, destrói um dos maiores mitos da humanidade: de que as crianças são sempre boas e puras e de que a ligação entre a mãe e um filho é o laço mais perfeito e harmonioso que pode existir, o expoente máximo do amor altruísta.

A única desvantagem em ver o filme depois de se ler o livro é que este argumento vive em grande parte do desconhecimento do desfecho. Como tal, o filme surge-nos mais aflitivo e sem qualquer tipo de sentimento de simpatia para com o pequeno Kevin – a que poderíamos estar mais predispostos já que no ecrã vemos um rapazinho efectivamente queriducho. De resto, “We Need to Talk About Kevin” é uma rara excepção à regra que dita que o livro é melhor que o filme. Há pormenores, claro, que passarão despercebidos a quem não leu o livro, como o facto de Kevin ter, em adolescente, uma obsessão por usar roupa demasiado pequena. As t-shirts curtas e as calças apertadas estão lá, realmente, mas nunca são mencionadas.

Igualmente geniais, apenas com uma estrutura compreensivelmente diferente, as obras de Lionel Shriver e Lynne Ramsay levam-nos à procura obsessiva da resposta a uma pergunta: de onde vem a maldade? É inata ou adquirida? O termo será, talvez, simplista. Não sabemos bem se Kevin é mau. Sabemos que desde tenra idade não esboça um sorriso e tem total ausência de empatia pelos que o rodeiam. É astuto, aliás, não será abusivo dizer que é extremamente sensível, capaz de entender a psique humana ao ponto de a manipular com mestria.

Dos múltiplos gestos de crueldade que lhe observamos, todos parecem ter um propósito: atingir a sua mãe, Eva, antiga escritora de viagens, um espírito livre que se viu a morar numa casa de sonho dos subúrbios, convencida pelo marido, Franklin, que ama, mas de quem se distancia mais e mais desde o nascimento de Kevin. À família junta-se, mais tarde, Celia, uma loirinha irresistível, meiga, frágil, um pouco tonta, a vítima perfeita – através dela, o irmão consegue de modo mais requintado ferir a mãe.

No livro, a história é-nos contada através de cartas que Eva escreve a Franklin, um marido que já lá não está – para onde foi só descobrimos no final. No filme, encontramos Eva (uma magnífica Tilda Swinton) já noutra casa, uma espécie de bungalow velho de subúrbio, quase um fantasma, assaltada por contínuas lembranças que nos são apresentados como flashbacks, memórias em que busca o início de tudo, um erro, um sinal de que Kevin podia ter sido diferente.

Não é só em termos de história que “We Need to Talk About Kevin” se destaca. Visualmente, o filme capricha nos detalhes, nas cores, nas formas, nos sons. Ezra Miller, o Kevin adolescente, é arrepiante na sua performance, que substitui o rosto trombudo da infância por um eterno sorrisinho sarcástico no canto dos lábios. E uns olhos – ui – negros como a noite, amendoados e ameaçadores.

“We Need to Talk About Kevin” está cheio de vermelho. A tinta que a população atira furiosa para o carro e para as paredes da casa da Eva do presente. O vermelho da geleia de morango, que Kevin esmaga simbolicamente entre duas fatias de pão. O vermelho que brota do ralo do lava-loiça por onde o hamster de Celia “misteriosamente” desapareceu. O vermelho que, sabemos desde início, é um aviso do sangue que será derramado.

Tanto sobre o livro, como sobre o filme, haveria muito a dizer. Mas para isso seria preciso desvendar o horrendo acto de Kevin, pelo qual Eva pagará para o resto da vida. E tudo o que não queremos é estragar a surpresa. Porque este é, sem dúvida, o melhor filme do último ano e um livro para entrar para os top 10, e ai de nós, um humilde jornal, se vamos beliscar a experiência de o apreciar.

 

“We Need to Talk About Kevin”

Lionel Shriver, 2004 (livro)

Lynne Ramsay, 2011 (filme)

 

Inês Santinhos Gonçalves

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