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A importância de ser mau

Nicolau Maquiavel disse-nos no século XVI que ao príncipe serve mais o temor que o amor. É melhor ser temido do que ser amado, avisou-nos este florentino que escreveu “O Príncipe” a pensar nos Medici, que então governavam a cidade.

Neste século XXI, o argumentista Farhad Safinia parece querer dizer-nos o mesmo com a história de Tom Kane, a personagem principal da série “Boss”. É melhor ser temido do que ser amado, na Itália quinhentista, na Chicago dos nossos dias e em muitas empresas deste mundo. Pelo menos aos olhos de Maquiavel. Pelo menos aos olhos de Safinia, de Tom Kane e de muita gente que polui os dias.

O mal, quase como a imagem de um incêndio ao longe numa noite escura, tem um certo efeito encantatório. Podemos reprová-lo (e ainda bem), podemos querer estar longe dele (sempre), mas observá-lo à distância é conhecer os becos mais esconsos da mente humana. O mal já deu grande cinema (“A Laranja Mecânica” pode ser uma boa introdução). Agora dá também uma grande série.

“Boss”, que tem o cineasta Gus Van Sant como produtor (e realizador do primeiro episódio) é, para dizermos pouco, uma série extraordinária. Conta a história de Tom Kane – um irreconhecível Kelsey Grammer, o mesmo de “Frasier” e de muitos outros registos cómicos – aqui transformado em ‘mayor’ de Chicago. Kane é um homem mau, mas mesmo muito mau. E um homem forte, mesmo muito forte. Juntas, a maldade e a força são as armas que usa para, com punho cerrado e pose de galã, domesticar a cidade.

Kane, que tem esse apelido cheio de história do cinema e de Orson Wells, é tudo isto mas tem uma fragilidade. E, apesar de toda a crueldade, é nessa base frágil que assenta a narrativa, é ela que nos prende desde o primeiro segundo – e aqui literalmente, porque “Boss” tem um arranque imbatível.

Tudo está bem feito em “Boss”, a começar pela música que pinta o genérico, com Robert Plant a anunciar ‘satan, your kingdom must come down’. O reino de Tom Kane é um reino podre, em que uma maçã tapa a outra e a outra. Mas Kane, que tem uma fragilidade, está disposto a qualquer coisa – a qualquer coisa mesmo – para mantê-lo.

Se em “Boardwalk Empire” – também sobre um homem mau que domina uma cidade (Atlantic City) e também produzida por um homem do cinema e não da TV (Martin Scorsese) – Nucky Thompson parece ser capaz de ceder à bondade dos outros, em “Boss” não há afectos que façam amolecer o coração de Tom Kane.

A primeira temporada acompanha a descida às profundezas de Kane ao mesmo tempo que retrata a corrida para o Senado norte-americano. E quando acreditamos que ainda pode haver redenção, quando cremos que ninguém pode ser mais cruel que aquilo, Kane esfrangalha-nos, manda-nos ao ar, dá-nos dois pontapés e diz-nos que somos uns meninos.

Ver “Boss” é essencial para seguir a melhor ficção que está a fazer-se nos EUA. Sempre com uma ressalva: Tom Kane é um homem mau, mesmo muito mau.

 

Boss

Farhad Safinia, 2011

 

Hélder Beja

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