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A vida a acontecer

Este lugar existe. “É Na Terra Não É Na Lua” e existe. O título do filme de Gonçalo Tocha parece querer dizer-nos isso mesmo: não se esqueçam que este lugar existe. O lugar é a ilha do Corvo.

“É Na Terra Não É Na Lua” é um poema filmado, um livro de viagens sem papel, uma declaração de amor à vida simples que nós, nesta cidade como noutras, vamos esquecendo à laia de tubos de escape e betão.

Tocha e Dídio Pestana embarcaram para o Corvo com um propósito bem determinado: filmar tudo o que pudessem, registar todos os sons que ouvissem. Perceberam depressa que, num lugar pequeno com umas 400 pessoas desacostumadas a forasteiros que prolongam a estadia, não podiam (nem queriam) esconder-se atrás da câmara. E isso foi a melhor coisa que lhes aconteceu.

O filme vencedor do último DocLisboa transformou-se numa incrível experiência não só cinematográfica mas sociológica, em que uma pequena população isolada numa ilha no meio do Atlântico constrói, em conjunto com dois rapazes de Portugal Continental, um filme-ensaio sobre si mesma, sobre o lugar que habita, sobre os gestos mais habituais do seu dia-a-dia até às lendas de cavaleiros e santas que chegam em caixas de madeira vomitadas pelo mar para proteger o Corvo.

Em 180 minutos em que nunca há pressa para chegar a lado algum, Tocha conduz-nos pela vida daquela gente e pela sua própria vida enquanto novo habitante do Corvo. Ele está no filme, Dídio Pestana está no filme, todas as pessoas da ilha estão no filme e falam do filme durante o filme. Para atar um número enorme de diferentes pequenas histórias, o realizador recorre à narração mas de um jeito bem peculiar. Tocha e Dídio vão conversando informalmente ao longo do filme, desde o primeiro momento em que do barco avistam o Corvo, e vão-nos guiando pelo filme, pelas vidas daquela gente, pelos mitos.

A lente de Gonçalo Tocha filma a vida a acontecer no Corvo. E no Corvo, como em tantos lugares perdidos e maravilhosos de Portugal, a vida não acontece como nos romances de Stieg Larsson ou nos piores filmes, cheia de episódios rocambolescos e de muita ‘acção’.

A vida no Corvo acontece devagar, com um dia que amanhece, uma tarde de chuva, um barco que chega, um avião que parte, um vitelo que nasce, um porco que se prepara para morrer, velhas que rezam na igreja, putos num bar que é o único, uma mulher que costura um gorro e que se chama Inês Inês porque casou com um homem de apelido Inês que lhe duplicou o nome, um homem que vive sozinho e que assegura que no Corvo sem companhia dá-se em doido e que diz que vai para Angola porque “A Europa já tá toda fodida, a Europa já tá queimada. Pa ganhar dinheiro é ali.” A vida no Corvo acontece num paraíso naturalista em que há uma lagoa de ficar sem ar e uma lixeira a céu aberto, em que há observadores de aves que vêm de fora e que ficam com as entranhas às voltas de tanta ave rara que vêem, em que o mar ainda vai decidindo se há faina ou não há faina, em que as eleições autárquicas envolvem mais de um terço da população e fazem parar a ilha.

“É Na Terra Não É Na Lua” está cheio de honestidade e beleza. É um filme profundamente belo e naturalista. Um filme sem truques, sem camadas. É a vida a acontecer na cara e nas mãos rugosas de dez velhos sentados num banco à espera que a noite venha. É a vida a acontecer como acontece a muita gente sem que ninguém dê por isso. Sem que ninguém ligue a câmara e comece a gravar durante 180 horas.

 

Hélder Beja

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One thought on “A vida a acontecer

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